Negra? Eu?

Quando a Charô foi montar as Blogueiras Negras me chamou para participar e lembro de ter dito o seguinte:

– Mas Charô… olha só, não sei se sou negra. Nunca pensei em me identificar nesse sentido. Também nunca neguei, tenho negros e indígenas na família, mas acho que falta mesmo uma reflexão.

Não lembro exatamente o que Charô respondeu, mas foi algo no sentido: “para mim sempre foi óbvio que você é negra”. Por causa disso aceitei o convite e faço questão de postar no blog pelo menos uma vez por mês, para contribuir com esse projeto que tem me ensinado tanto.

Passados alguns dias do lançamento das Blogueiras Negras, uma amiga querida, branca, queria entrar no grupo e não foi autorizada. Porque o grupo é restrito a negras e afrodescentes, como forma de criar espaços que reafirmem a identidade e a luta negra. Ela me chamou num chat e perguntou: “Fui barrada. Mas como você conseguiu entrar?”. E tive que responder: “amiga, sou negra”.  Ali ficou óbvio que a questão não é tão simples como cheguei a acreditar.

Meu avô materno é negro. Não o conheci, mas as fotos não deixam dúvidas. Não sei sua trajetória de vida, chegou a ser comerciante, mas faleceu cedo, devido a uma doença cardíaca. O lado da família de meu pai tem negros na ascendência e parece ter também indígenas. Então, sou aquela pessoa que sempre se identificou como parda. Porém, isso tem me incomodado há algum tempo, especialmente desde que tenho tido contato com o feminismo negro.

Quando as pessoas me identificavam por minha cor lembro de ter sido chamada de diversas alcunhas: moreninha, marrom-bombom, café-com-leite, caboclinha, morena-jambo. E, hoje, para mim é visível que essa dificuldade em denominar minha cor, essa tentativa de amenizar minha melanina com adjetivos carinhosos, representa a imensa dificuldade que temos de chamar alguém de negra ou preta. Porque no fundo todas essas alcunhas se referem a raça, a cor da minha pele, minhas etnias. E aí entra o racismo.

Eu.

A Liliane Gusmão também fala dessa descoberta da negritude e do racismo no texto: ‘Quase branca, quase preta’. Acredito que também estou nesse estágio de identificação. Porém, nunca me considerei branca. Parto do princípio que sou uma negra que ainda não se identificou com a cultura negra.

Provavelmente, isso decorre do meu embranquecimento, devido ao fato de que sempre pertenci a classe média, estudei em colégios particulares, sempre tive plano de saúde particular, entre outros privilégios. Não possuo muitas características negras marcantes como o cabelo afro, meu cabelo anda cada vez mais liso sem química. Então, por várias vezes, como apontou minha amiga, passei por branca. E, pelo que lembro, as vezes em que passei por negra envolveram estereótipos sexuais referentes a mulher negra, aquela que está sempre pronta para deleitar os machos.

Estou nesse processo de construção da minha negritude. Buscando compreender a representatividade disso em minha identidade, consequentemente, em minhas lutas pessoais e políticas. Sigo refletindo em cima das fichas que só agoram começam a cair.

Para você que quer começar a pensar no assunto também, deixo o documento lançado essa semana no VI Festival Latinidades, feito pelo IPEA e disponível para download: Igualdade Racial no Brasil – Reflexões no Ano Internacional dos Afrodescendentes.

Este post faz parte da I Blogagem Coletiva 25 de Julho – Dia da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

15 comentários sobre “Negra? Eu?”

  1. Foi com o feminismo negro que eu aprendi que apagamento é também racismo: deletar sua história, negar seu passado…
    Viva a Mulher Negra!

  2. Um dia participando de um debate sobre racismo logo que entrei na Universidade disse que me sentia diferente na família porque todos eram negros e eu não. Meu pai é negro e minha mãe muito branca. Imediatamente, um companheiro que na época eu conhecia pouco me disse: “mas você é negra! Só que é clara”. Apesar de ser clara, eu também nunca me identifiquei com minhas amigas brancas. Não me encontrava nesse mundo de cabelos lisos. Me reconhecer mudou minha vida; várias coisas começaram a fazer sentido. Agradeço muito a esse companheiro, Fábio Nogueira, que hoje é um grande amigo. Ser negra me faz muito feliz!

  3. Essa história de racismo é cruel.Sou branca até onde conheço meus ancestrais, me casei com um “marrom- bombom” como dizem por aí e tive que aguentar toda sorte de piadinhas sobre a cor dos filhos que eu teria.
    Meu filho foi registrado como branco e quando tinha 16 anos nós fomos tirar sua carteira de identidade e mudamos a cor.
    Eu eduquei este garoto para se orgulhar da bisavó que foi escrava e de todos os parentes e uma miscigenação maluca que há entre nós.
    Quando digo miscigenação maluca me refiro exatamente a esta confusão sobre meio negro e meio branco que pode ocorrer.Infelizmente já vi muitos jovens suspirarem aliviados por serem mais brancos ou coisa do tipo.
    Tudo isto pode ser explicado pela crueldade do racismo
    Ainda bem que há grupos que trabalham para promover a autoestima dos jovens afrodescendentes.

  4. Bia, me identifiquei muito com seu questionamento sobre etnia. Houve um tempo em que eu sequer havia pensado nisso. Sou filha de negro. neta de negra. Mas mamis é branquinha. Então, nasci aparentemente branca, mas com traços negros e cabelo afro. Cabelo este que foi alisado aos 8,9 anos. Há alguns anos venho me envolvendo mais com política, história, feminismo e recuperei minha identidade. Cortei todo o cabelo, me identifico como negra. Isso chocou MUITAS pessoas que convivem comigo. Negros e Brancos. Mas como a Bia ressaltou, eu “embranqueci” com os “privilégios” da classe média/branca. “Privilégios” entre aspas pq minha familia passou muitas dificuldades, fui bolsista em escolas muitas vezes e sou a primeira pessoa da minha família a concluir o terceiro grau. Hoje, pleno orgulho de ser negra! Somos todos negros!

    1. Cecilia, num país como o nosso, em que o racismo é velado e toda discussão é varrida para debaixo do tapete, acredito que nossos questionamentos nesse sentido sejam bem comuns. O embranquecimento é sempre a norma, é sempre o melhor. E aí, nos perdemos nessa identidade. Um grande beijo.

  5. Li o seu texto e já tinha lido o texto da Liliane Gusmão, gostei muito e rendeu um bom debate aqui no meu trabalho. Mas desse debate surgiu uma pergunta, onde ficam os pardos? Eu e minha colega somos pardas e não nos identificamos com nenhum grupo, não somos brancas, nem negras e nem indígenas. Meu tataravô paterno era negro, meu tataravô materno, por parte do meu avô era índio, meus tataravós maternos, da parte da minha avó eram poloneses. Portanto sou pedacinho de cada um. E o mais interessante, não me pareço com nenhum dos grupos. Fico feliz quando vejo um texto desses em que o autor diz que conseguiu se identificar ou que aos poucos vai se identificando. Porém eu continuo na mesma, não consigo encontrar um lugar para mim e acho que algumas outras pessoas se sentem assim também. E parabéns pelo texto.

  6. Vi o post através do Facebook de uma conhecida. Minha resposta lá, vou repetir aqui:

    Ótimo texto. Morando no Brasil nunca tive que pensar nisso. Nunca me intitulei branca, nem negava ser negra. Mas nunca tive que pensar nem responder isso. Chegando aqui (EUA), logo fui intitulada “latina”. Estranho, pq Latino não é raça, é questão geográfica. Mas brancos são indiscutivelmente os Euro-decendentes (caucasianos). Pretos são claramente os Afro-decendentes. Todo mundo que é mistura da América Latina é latino. E toda mistura de branco e negro aqui, é negro. Simples assim. Tudo muito bem dividido.
    Agora quando respondo questionários, marco Latina, Negra, Branca.

  7. Até eu que não sou negra, mas esse moreninha jambo, tive dificuldades de infiltração. Primeiro porque já senti preconceito dentro da minha família negra por ser a unica neta “morena”, os outros são brancos ou pardos. Segunda por minha família italiana, eu também ser a única negra. Eu e um outro primo que teve o privilégio de crescer na Suécia, passa por branco fácil. A questão é que ninguém entende porque eu odeio que me chamem de morena. Sou negra da pele clara, se pego sol sou “preta” mesmo. Apelido carinhoso que meus amigos me chamam e minha família. Eu adoro, sabe porque? Porque nunca poderia me chamar de branca. Se você olha para minha cara você jamais pode me chamar de branca, então não, não sou morena jambo. Sou negra, minha raça, etnia, o porque de eu ser diferente das outras crianças loiras de olhos azuis. E tenho muito orgulho disso, queria eu ter os cabelos afros para assim as pessoas acreditarem que sou negra, porque eu acho que na minha vida ser negro não é a cor, e sim a batida do meu coração quando eu ouço um tambor, um samba, um maracatu, uma música afro. É isso que me define. Eu amei o seu texto, e de outras blogueiras negras que assim como eu também ficam em cima do muro nas definições politicamente corretas.

  8. Gostei do texto, sou negra, familia de negros, indios e bisavó portugues. Moro na españa casada com español, nao tenho cabelo afro e aqui eles nao conseguem aceitar quando falo que sou negra, dizem que negra não sou morena, até pq a referancia de negros aqui para eles são os africanos e passo longe de ser africana. Sempre tive orgulho de assumir minha negritude, tenho orgulho de ser negra!
    Tenho dois filhos lindos e meu menino no Brasil seria considerado branco, o falso branco que temos aí, aqui qd ele esta ao lado de crianças espanholas se ve claramente que branco ele não é. O engraçado é que qd ele nasceu e postei foto no face, os amigos brasileiros diziam: Que lindo, é branquinho né! 80% dos comentarios referiam-se a cor dele.
    Meu marido achava muito estranho pq sempre tinham que comentar a cor dele, lindo já bastava! Passei a perceber e realmente é verdade, brasileiro se preocupa muito com isso, minha bebê de 1 aninho é mais morena que o irmao e os cabelos encaracolados, aí os comentarios: – NOOOssa ela parece com vc né, moreninha e o cabelo tbém será igual! Linda!!!
    E outra vez meu marido falou da mania do brasileiro de se preocupar sempre com a cor.
    Meu filho pergunta pq sou negra e sempre explico tudo para ele, ele tem consciencia que nao é branco e me orgulha escutar da boca dele que gostaria de ser negro como eu. Passo sempre para ele o orgulho que tenho de ser negra e brasileira e espero que ele mantenha esse orgulho aceso dentro dele, e claro para minha filha tbém!

  9. Todos dizem que sou branca e depois q alisei o cabelo, a coisa desandou mesmo, rsrs. Mas jamais me considerei branca, pois minha mãe é mulata, avô, um negão lindo, alto e militar, rsrs. Pra não gerar comentários desnecessários eu sempre assinalo a opção “parda” em questionários e ponto final. Mas é duro viver nessa indefinição, viu? É como se eu fosse nem uma coisa e nem outra.

  10. Faço minhas as suas palavras. Mas desde muito tempo já me sentia mais negra, no entanto, costumava ser corrigida pela negros que pareciam estar ouvindo uma piada Quando eu dizia que não era branca.

  11. Ótima reflexao! Eu confesso, antes eu tinha um “pé atrás” com a Camila Pitanga quando ela assume ser negra, eu nao conseguia ver a negritude nela, mesmo sabendo que ela é filha do Antônio Pitanga. Estranho né? Mas está relacionado com tudo isso que você falou. Claro que tb nao tenho mais esse preconceito, depois que passei a acompanhar os blogs de feministas negras passei a ver o mundo de outra maneira, menos branco e mais cheio de diversidade.

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