Transtorno Delirante Persistente

Esse é o nome da doença psiquiátrica que minha mãe tem. Após quase três meses de medicamento as coisas estão bem melhores. Ela praticamente já voltou a sua rotina e eu ando retomando aos poucos a minha.

Há diferentes tipos de transtornos delirantes. Nesse caso, o “persistente” aplica-se porque os delírios duram mais de um mês. Eles caracterizam-se pela presença de uma idéia inabalável, circunscrita de conteúdo não bizarro e sem deterioração da personalidade. Os delírios são monotemáticos e possíveis de ocorrer na vida cotidiana como traição, perseguição por alguém ou uma infecção, por exemplo.

Os pacientes dessa categoria tornam-se hipervigilantes, podendo levar ao isolamento social, mas mantém um nível de funcionamento adequado. A personalidade permanece intacta ou sofre comprometimento mínimo. E o que mais me surprendeu, acomete com maior frequência mulheres, geralmente após os 40 anos. Uma das explicações que o psiquiatra me deu, foi que os sintomas sempre estiveram por ali, mas a menopausa pode ajudar a deflagrar uma crise.

[+] Tratamento do transtorno delirante persistente (.pdf)

Nesse post deixo cinco dicas simples para quem tiver que encarar essa doença:

1. Paciência em níveis estratosféricos

No início do tratamento me mudei para a casa de minha mãe. Durante a primeira semana do remédio passei todos os momentos ao seu lado, acordando, dormindo, comendo, tomando banho, etc. Paciência é fundamental. Porque o remédio não vai fazer efeito instantâneo. O médico pediu pelo menos três semanas para uma avaliação. Nesse tempo, alguns sintomas da doença continuaram, como o sentimento de perseguição. Houve dias em que ela esteve muito apática, sem querer fazer nada. Em outros, apresentou melhoras significativas, depois voltava a dormir o dia inteiro. No caso dela, a mudança no comportamento e o ato de sair sozinha só vieram após um mês de tratamento.

2. Encontre um psiquiatra com quem você possa conversar abertamente

Nunca tive contato com doenças psiquiátricas, por isso optei por pagar um profissional que me foi bem recomendado e que me permitia ligar para o celular dele. Liguei várias vezes, tirei inúmeras dúvidas, outras vezes ele só ficou ouvindo meus medos. Com duas semanas e meia de medicação sentia que ela ainda não estava bem. Levei-a ao consultório e ele aumentou em 5 gramas a dose do remédio. Fez um ótimo efeito. Sinto que nessa relação a confiança precisa ser mútua. Porque eu preciso confiar no trabalho dele e ele precisa ouvir com atenção meus relatos.

3. Comprimido orodispersível

Uma das boas coisas no início do tratamento foram os comprimidos orodispersíveis. São medicamentos no formato de um comprimido, mas que se dissolvem na boca, sem necessidade de tomar água junto. Tive que dar o remédio a força algumas vezes. Segurar minha mãe, abrir sua boca e dar-lhe o comprimido é algo extremamente doloroso, mas que foi facilitado por eu não ter que ficar esperando ela engolir o comprimido ou ainda ter que força-la a beber água. Após algumas semanas, quando ela já tinha aceitado totalmente o remédio, o médico receitou o mesmo remédio num formato comum.

4. Programa de descontos dos laboratórios

No meu caso, minha mãe está tomando um remédio do laboratório Lilly. Por meio do programa “Lilly Melhor Para Você” é possível conseguir grandes descontos na compra dos medicamentos. Basta ligar no SAC, cadastrar dados do paciente e responder um rápido questionário socioeconômico. O remédio que custa R$900, compro por R$380. O ruim é que apenas algumas farmácias participam desse programa. Aqui em Brasília, no plano piloto, a atendente me passou apenas 4 farmácias credenciadas.

5. Cuide de você

Cheguei a fazer entrevistas para contratar cuidadoras. Porém, minha mãe tem grande resistência em ser cuidada e me pediu para que não contratasse ninguém. Comprometeu-se comigo a fazer o tratamento. Talvez tivesse sido mais fácil para mim ter pago alguém para cuidar dela, mas é duro ir contra minha mãe nesse momento. Nunca tive que cuidar dela, então, a situação toda para nós duas era bem difícil.

Faço terapia há quase seis anos. Individual e em grupo. Minhas terapeutas foram fundamentais nesse processo. Entretanto, mesmo tendo apoio de vários lados, adoeci. Tive crises de taquicardia e até hoje minha respiração anda meio errática, como se tivesse tomado um susto. Fui a alguns médicos, fiz exames, nada encontrado, apenas stress. Então, não deixe de esticar uma rede de proteção, porque vai ter uma hora em que caímos do trapézio, mas se a queda for pequena nos recuperamos rápido.

Porém, quando estiver com muitas dúvidas, pergunte: o que é possível para você agora? Porque mesmo numa relação de cuidados é preciso ter em mente quais são nossos limites.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

5 comentários sobre “Transtorno Delirante Persistente”

  1. Ótimos conselhos, Bia. Fico realmente contente que sua mãe esteja bem, e que você esteja melhorando. 🙂
    Sobe os convênios, as atendentes sempre informam uma lista reduzida. Normalmente, mais farmácias aceitam os convênios. Se houver alguma perto da sua casa ou que você frequente sempre e seja mais prática, vale a pena perguntar se aceita.

  2. Oi querida Bia!

    Realmente cuidar de pessoas que apresentam problemas psiquiátricos é um desafio enorme e se você não toma cuidado acaba se esquecendo de se cuidar também. Nessas horas a gente esquece da gente e fica só pensando na pessoa a ser cuidada, quando nós também precisamos ser cuidados né?Mas muita força pra ti querida e afofamentos mil!

  3. Bia, só li seu relato hoje. Querida, compartilhar a experiência é bom para quem vive algo semelhante e é uma maneira de você desabafar também. É difícil, temos um caso semelhante na família que requer até internação, mas o que realmente funciona é o carinho e a dedicação da pessoa que mais amamos. Cuide-se, alimente-se, divirta-se sempre que for possível. E grite por nós, sempre que precisar.
    Um ano bom, abençoado e com muita saúde pra você e sua mãezinha!
    beijo, menina

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