O Riso dos Outros

Está todo mundo compartilhando esse documentário: O Riso dos Outros. O objetivo é discutir o humor. Existem limites para o humor? O que é o humor politicamente incorreto? Uma piada tem o poder de ofender?

Por meio de diversas entrevistas, com comediantes, feministas, escritores, professores, cartunistas, militantes e tantas outras pessoas. Entre elas: Jean Wyllys, Rafinha Bastos, Ana Maria Gonçalves, Tica Moreno, André Dhamer, Arnaldo Branco, Idelber Avelar, Danilo Gentilli, Laerte e Lola Aronovich.

Para mim algumas coisas definem muito a questão do humor, já falei sobre algumas delas no texto “Estupro, no dos outros é refresco”. Mas o Laerte resume algumas dessas questões quando diz que o humor dialoga com o preconceito das pessoas. O humor é um discurso e, como todo discurso, pode servir para reforçar visões conservadoras e preconceituosas. Ou pode servir a desconstrução.

No vídeo há várias cenas de stand-up comedy. E é claro que o diretor e o editor parecem ter pego só as piores piadas. A piada sobre a gorda, que a mãe faz vitamina na máquina de lavar e que não tem vida sexual porque não se encontra sua vagina entre as dobras de pele, é tão grotesca que a própria comediante avisa que o nível tem que baixar cada vez mais. Ha uma piada em que o cara afirma que ao invés de levar a mulher para jantar de carro, vá de ônibus, pois você pode encoxá-la e comê-la durante o trajeto. E há pessoas que riem, claro. Porque o humor precisa de uma vítima. A grande questão é que o humor fácil pega como vítima grupos historicamente marginalizados, enquanto o humor transgressor coloca o algoz como alvo.

Essa discussão sobre os limites no humor acaba se resumindo em uma batalha entre as pessoas que acreditam que o humor quebra preconceitos contra as que acreditam que o humor reforça o preconceito. Qual dos dois lados está certo?

O Laerte fala muito bem sobre isso. Ele diz que o humor é uma linguagem como qualquer outra. E a linguagem em si não diz nada. Tudo depende de quem está falando. O que eu acho importante é mostrar que não estamos pregando um tipo de humor. Não estamos falando que o humor tem que quebrar com o preconceito. Eu não acho que o humor tenha que fazer nada. Você que está fazendo a piada é que tem que saber o que você está falando ou deixando de falar. Esse é o ponto. Esse papo recorrente de que existe humor neutro é absurda, porque não existe discurso neutro. E o filme quer mostrar um pouco isso: que as piadas que estão mais naturalizadas não são em si naturais. Tudo isso é uma construção e depende da posição do artista. O importante, ao meu ver, é que o artista se posicione. Não pode também se montar nesse discurso de neutralidade. Isso é a pura ingenuidade.

Você acha que tem algum grupo que é alvo de piadas e que as pessoas protegem mais do que outros?

O que eu acho é que tem setores da sociedade que são mais organizados que outros. Então parece que fazer piada de anão é menos ofensivo do que fazer piada com negros. Mas a verdade é que os negros são um grupo muito melhor organizados historicamente do que o grupo dos anões. É só isso. Mas eu não acho que esses estereótipos não devam ser usados. Eles podem ser usados até de maneira muito positiva, justamente para ridicularizar o preconceito em si. Tem humoristas brilhantes que se utilizam muito de estereótipos como o Bill Hicks ou o Louis CK. Eles são caras que jogam com essas ideias de estereótipos e que invertem totalmente a noção de preconceito. Outra coisa que o Laerte disse na gravação do filme é que sempre vai haver alguém ofendido quando se faz uma piada. A questão é como a gente negocia essa ofensa historicamente.

Tá rindo do quê? – Entrevista com Pedro Arantes, diretor do filme.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.