Troque sua rosa por um mundo com mais igualdade

Quero falar especialmente sobre o momento de luta em que vivemos. Por meio do grupo das Blogueiras Feministas diariamente disputamos espaços na internet. Construímos por meio de diferentes vozes, maneiras de pensar o feminismo. Portanto, o Dia da Mulher para mim tem um caráter de conquista e continuidade. É tempo de celebrar, mas também é hora de visualizar nossos desafios. Hoje, sou eternamente grata por todas as mulheres que contribuíram para que eu possa ter um blog. Pela liberdade que tenho de escrever na internet.

Mulher protesta contra a política de imigração francesa. Foto de looking4poetry no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

No livro “As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres” de Ana Isabel Alvarez González, Nalu Faria (coordenadora da Sof – Sempreviva Organização Feminista), relata grande parte do meu sentimento atual em relação ao 8 de março na apresentação do livro. Por isso, reproduzo trechos de seu texto aqui:

Quando a Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague em 1910, dedidiu pela realização de um dia internacional especialmente dedicado à luta das mulheres, nascia, cem anos atrás, o principal dia de luta do movimento de mulheres no mundo. Retomar o sentido da comemoração do Dia Internacional das Mulheres é recuperar parte da história de luta das mulheres, de alguns dos seus debates mais importantes e do esforço das militantes socialistas para convencer suas organizações políticas da centralidade da luta pela libertação das mulheres. O direito ao voto era, então, bandeira central das mulheres em grande parte dos países no mundo. As militantes socialistas nos Estados Unidos já haviam organizado um dia de mobilização pelo voto em anos anteriores. Inspirado nesse exemplo, o movimento de mulheres socialistas aprovou a proposta de um dia de luta unificado internacionalmente.

Em diversos países já existiam movimentos de mulheres por mudanças na legislação civil, em especial na regulamentação do casamento e do divórcio, pelo direito de frequentar escolas e exercer ofícios e profissões, de terem acesso à herança e aos bens de família, de participar de associações políticas e sindicais. Mas a reivindicação que mais se destacava e mobilizava especialmente as mulheres era o direito de voto, considerado um instrumento indispensável para que os demais direitos pudessem existir.

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A discussão sobre as formas de luta e a construção de alianças provocava uma permanente tensão tanto nas correntes do movimento sufragista independente quanto entre as militantes socialistas. Alianças que pareciam tão óbvias entre setores oprimidos permaneciam sempre conflituosas e frágeis e, com frequência, se rompiam em prejuízo de seu elo mais fraco: as mulheres. Alguns exemplos são bastante simbólicos. A dedicação das organizações de mulheres nos Estados Unidos `aluta pelo fim da escravidão dos negros não garantiu a elas que os abolicionistas apoiassem a igualdade para as mulheres, fossem branca ou negras, uma vez abolida a escravidão. Da mesma forma, no movimento socialista as militantes terão que dedicar parte importante de suas energias, e muitas vezes abrir mão de suas reivindicações, para convencer os partidos de esquerda que valia a pena lutar pela igualdade para as mulheres. E nem sempre foram bem sucedidas.

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Meninas egípcias. Foto de Al Jazeera English no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A história do Dia Internacional das Mulheres traz o debate da difícil construção da luta pela igualdade entre mulheres e homens no conjunto da esquerda ao mesmo tempo em que mostra os limites da luta feminista quando não se insere na busca de transformações estruturais das relações sociais e econômicas. A opressão das mulheres não surge com a sociedade de classes, mas em todas as formações sociais homens e mulheres foram reinseridos segundo sua classe e a desigualdade entre mulheres e homens se remodela favorecendo a dominação masculina so combinar as relações sociais de sexo (ou de gênero) com a dominação de classe.

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A história evidencia a resistência — e mesmo o rechaço — de setores do movimento socialista à perspectiva de organização das mulheres, alicerçada na recorrente incompreensão do direito das mulheres à igualdade no mundo público (ao trabalho e à participação política), contrastando com a realidade da sua presença no trabalho agrícola e no proletariado industrial, já fortemente marcado pela divisão sexual do trabalho. Em diversos setores a mão de obra feminina era mesmo majoritária. Difícil seria pensar na organização da luta revolucionária sem a participação das trabalhadoras.

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A existência de um dia comum tem papel significativo de mobilização. A incorporação pela ONU o 8 de Março como data mundial contribuiu para essa retomada em larga escala, ao mesmo tempo em que também incentivou um viés institucional da comemoração.

Ceroula Rosa no Dia Internacional da Mulher, Carnaval/2011 - Olinda/PE. Foto de Prefeitura de Olinda no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Em especial após os anos 1980, os meios de comunicação, diversas instituições e empresas vêm tentando absorver o Dia Internacional das Mulheres e transformá-lo em mais um evento do mercado, um dia de flores, de homenagens, de presentes… e de reforço da feminilidade tradicional. Nos últimos anos esse tem sido, até mesmo, um momento de investida antifeminista: jornais e revistas publicam artigos questionando se o feminismo ainda existe ou se ainda é necessário buscar a igualdade. Uma vez que “as mulheres já conquistaram tudo”, tratar-se-ia agora de combater os exageros feministas para que a mulher não perca a feminilidade.

Ao se tornar referência no mundo inteiro, o 8 de Março tem um importante papel na manutenção da identidade de um movimento amplo de mulheres e é um instrumento de mobilização e aglutinação das mulheres em torno da luta pela igualdade. Em um movimento tão amplo e disperso, que é característica do movimento de mulheres, a construção de um calendário de lutas pode ter um papel decisivo de mobilização e construção de uma identidade política, assim como a construção de símbolos, de dinâmicas próprias e o compartilhamento de uma história comum.

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Um novo mundo só nos corresponderá se for de igualdade também para as mulheres. Assim, a construção de uma prática e uma consciência feminista pode ser sintetizada na palavra de ordem: para mudar a vida das mulheres temos que mudar o mundo e, portanto, todas as lutas por mudanças são também lutas das mulheres.

Referência: As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres de Ana Isabel Álvarez González. Apresentação de Nalu Faria, pgs. 9 – 19. Editora Expressão Popular, 2010.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

4 comentários sobre “Troque sua rosa por um mundo com mais igualdade”

  1. Bia, acho que livro fantástico. Influenciou no meu olhar para o 8 de março mas em especial para o papel que as mulheres assumiram nas revoluções no mundo e que é invisível. Nós mulheres sempre lutamos, sempre trabalhamos!

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