A “diferença sexual”

Trecho do texto O Grande Silêncio: a violência da diferença sexual de Tania Navarro Swain.

Vamos problematizar. A “ diferença sexual”, naturalizada, assenta-se sobre um tripé, três instancias do social, que asseguram o exercício do poder falocentrico: a) a diferença material, onde se fixa a significação dada ao sexo e a sexualidade, onde se consagra a valorização do sexo masculino, do pênis, o “verdadeiro sexo”, louvado pela psicanálise, significante geral dos sistemas patriarcais. A diferença material, é a que acolhe a violência, assegurando os lugares de poder para o masculino. A partir do biológico, instala-se, portanto um determinismo social, no qual papéis/ status / deveres/ trabalho são divididos de forma assimétrica e hierárquica.

Imbrica-se a esta dimensão material, o campo representacional, a segunda peça do tripé, aquela que cria e recita imagens dotadas de significações binárias: são os sentidos produzidos no social, o que interpretam e criam realidade a partir de valores, verdades construídas em redes históricas de produção de conhecimento.

Uma representação repetida é performativa, isto é, cria aquilo que representa, cria também campos de poderes e de verdades em formações sociais históricas: se digo a um menino muçulmano “você é um homem”, subentende-se uma hierarquia e poderes a ela inerentes: ele terá ascendência sobre todas as “não-homens”, as “diferente”, que não possuem o sexo masculino: sua mãe, tias, irmãs, etc.

Ao se dizer “seja homem”, de modo geral, está-se significando um conjunto de valores atrelados ao masculino, que estão ausentes no feminino, assim desvalorizado. Quantas vezes não ouvimos a frase, dita a meninos de tenra idade: “cuide de sua mãe”? Encontramo-nos, assim, desde o nascimento, desde antes do nascimento, em um sistema de significações, de representações, de uma linguagem que impregna de valores e determina comportamentos em divisões binárias, identitárias, classificatórias, exclusivas e excludentes. Este é o domínio do Pai, assim instaurado no social como o eixo da autoridade e do poder.

Mas uma representação também é histórica e para manter-se precisa ser recitada, repetida, ensinada, inculcada e neste sentido percebe-se o processo de diferenciação de sexos, incrustado na biologia para melhor justificar sua pretensa veracidade. Foucault aponta para os “regimes de verdade” no social, isto é, a circulação de enunciados, de valores, de imagens e representações com valor de verdade.

Percebe-se assim que o processo de diferenciação de sexos se instala em formações sociais históricas e este processo é político, pois assegura e transmite poder, justifica e aprova o uso da força e da violência no controle, domesticação e utilização dos corpos, do trabalho, da produção realizada pelas mulheres. Este é o domínio do Patriarcado, a terceira ponta do tripé, os três P, que instituem corpos, ordenam e classificam os seres segundo sua genitália.

A construção da diferença sexual é, portanto, um processo político que produz diferença, desigualdade, que cria hierarquia e assimetria, que permite e estimula o uso da violência institucional e social, centradas na valorização e/ou desvalorização de um detalhe biológico – o sexo.

Assegura igualmente uma divisão de tarefas pretensamente ligada ao biológico e naturalizada pela memória social, a história. Hoje quase ninguém, que estuda e reflete um pouco pensa ainda numa história evolutiva, cujo processo levaria do pior para o melhor; sabe-se que a história é uma narrativa, uma ficção elaborada a partir de alguns indícios e explicitada segundo as condições de imaginação e de conhecimento dos historiadores.

É assim que, ao considerar a diferença sexual enquanto dado “natural”, a história não problematiza as representações e os valores que constituem o social e vem, nas formações sociais, aquilo que querem ver. Desta maneira, temos uma história androcentrica, que não cessa de repetir o mesmo, a mesma divisão biológica, os mesmos atributos, as mesmas hierarquias e assimetrias ao longo de um tempo linear.

Quem pode afirmar, por exemplo, que os desenhos pré-históricos foram feitos por homens ou que a descoberta do fogo ou da roda também foram fruto da diligencia e criatividades masculinos? Quem pode afirmar que havia mesmo um feminino e um masculino em épocas das quais nada sabemos? Ou mesmo em épocas mais conhecidas, para as quais não se problematiza a construção da “diferença sexual”, do sexo social? Quem pode afirmar que o sexo e a sexualidade sempre foram os determinantes da estrutura do social? Os discursos das essências e da incontornável “diferença sexual” são fruto de crenças caducas, de verdades esfarrapadas, destilados pelos donos da verdade, guardiões de poderes adquiridos.

[+] Diferença sexual: uma questão de poder – Tania Navarro Lins.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

3 comentários sobre “A “diferença sexual””

  1. Barbara, ando lendo muito os textos da Tania esses dias. Os links aqui estão funcionando. Joga o nome do texto do google que com certeza você acha, estão no site da Tania Navarro.

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