Sobre o Politicamente Incorreto

Recentemente, as livrarias brasileiras foram acometidas pelo surgimento de livros que pretendem fazer um revisionismo “politicamente incorreto” da História do Brasil e da América Latina. Nem a Folha de São Paulo, conseguiu deixar de notar o quanto esses livros são idiotas e prejudiciais para a elaboração do pensamento histórico brasileiro. Em dois textos de Sylvia Colombo, a jornalista cita algumas falhas graves na visão histórica preconizada por essa literatura que se autoentitula “politicamente incorreta”, como se quisesse fazer parte do time de comediantes machos engraçaralhos que pululam por aí:

Com relação a negros e índios, Narloch usa uma visão bastante distorcida de uma certa escola carioca de interpretação da história. Nela, os brancos não teriam sido assim tão maus e a colonização resultara boa para todos. Diz Narloch dos indígenas, por exemplo: “queriam mesmo era ficar com os brancos, misturar-se a eles e desfrutar das novidades que traziam”. Ou: “Perceberam que muitos nativos se mudaram para vilas por iniciativa própria, provavelmente porque se sentiam ameaçados por conflitos com os brancos ou cansados da vida do Paleolítico das aldeias”.

Mais à frente, surge outra pérola: “Existem muitos lugares irrelevantes pelo mundo –como Porto Rico, a Bélgica, o Paraná– o que não chega a ser um problema.” Em outro momento infeliz, compara o nacionalismo de Mário de Andrade aos de Hitler e Stálin. Só porque o modernista publicou obras “sobre modinhas do tempo do império, folclore, música popular, música de feitiçarias e danças dramáticas”.

O momento mais delicado, obviamente, é aquele em que trata da ditadura. É cada vez mais comum que novos estudos promovam uma releitura menos ideologizada do período e que cada vez menos se fale em “mocinhos” e “bandidos”, como sugere Narloch. Mas o rapaz toma tão claramente um só partido da dicotomia que diz tentar combater que fica até feio. Chega a dizer coisas duvidosas, que qualquer estudioso sério da ditadura ao menos relativizaria, do tipo: “Qualquer notícia de movimentação comunista era um motivo justo de preocupação. A experiência mostrava que poucos guerrilheiros, com a ajuda de partidários infiltrados nas estruturas do Estado, poderiam sim derrubar o governo.” Continue lendo em História com “h” minúsculo.

No capítulo sobre Simon Bolívar, fica claro que a intenção não é entender o personagem, mas atacar Hugo Chávez. Tampouco aqui dizem algo novo. Que Bolívar era um aristocrata criollo e nada socialista, está em quase todas as suas biografias. Isso não diminui sua importância no processo de emancipação. Foram em geral esses criollos que sentiram o vazio deixado pela queda da coroa espanhola em mãos francesas, queriam liberdade de comércio, liam os livros com as ideias iluministas, etc.

Mas o encerramento desse capítulo entrega o verdadeiro objetivo dos autores. Dizem que o pensamento de Bolívar está vivo “a julgar pela ditadura que a Venezuela se transformou nos últimos dez anos”. Cabe lembrar que a Venezuela não é uma ditadura, como Cuba hoje ou o Chile sob Pinochet. Pode-se considerar Chávez um mau governante, populista, amigo de líderes indefensáveis, mas foi eleito pelo povo venezuelano.

A repulsa que os autores sentem pelas culturas latino-americanas é notória e se faz notar em pequenos detalhes. Dizem, por exemplo, que mexicanos são exóticos porque celebram o Dia dos Mortos saindo às ruas para se divertir com esqueletos. Alguma explicação sobre como surgiu essa tradição, qual o tamanho da festa e o que ela significa para o povo mexicano? Nada. É coisa de quem provavelmente sai muito pouco do próprio bairro. Os estereótipos não param de chover, sem qualquer curiosidade para interpretá-los e com o único objetivo de ridicularizar tudo. Continue lendo em Livro reflete ignorância brasileira sobre a América Latina.

Para essas pessoas que colam no peito o distintivo do politicamente incorreto só para garantir “seu direito” de ofender os outros, o cartunista Laerte deu a melhor resposta por meio de um quadrinho, publicado em seu blog Manual do Minotauro.

Autoria da imagem: Laerte. Publicado no blog Manual do Minotauro em 03/09/2011.

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4 thoughts on “Sobre o Politicamente Incorreto

  1. Fui pesquisar sobre o Narloch e achei, Veja você Augusto Nunes rasgando elogios ao “grande jornalista” e seu “sério trabalho de pesquisa”.

    Podem mudar o “diga-me com quem andas” para “diga-me quem te apóia”

  2. Excelente post. E fui ler o artigo da Sylvia Colombo na íntegra, muito esclarecedor. Li este livro e emprestei-o para uma amiga, profa. de História numa escola de ensino médio em Ribeirão Preto. Ela ficou horrorizada, O capítulo da Guerra do Paraguai chocou-a especialmente. Adorei Bia.

  3. Ricardo, me avisaram que o Narloch escreve para a Veja. Os intolerantes e politicamente incorretos já vem há algum tempo tentando criar seu arcabouço teórico por meio dos livros de Demétrio Magnoli e Ali Kamel. Eu realmente não deveria estar espantada com esses livros do Narloch.

    Luciana, mesmo os artigos da Sylvia Colombo tem alguns erros, mas dá perceber como esses livros são absurdos e preconceituosos. Espero que os professores politicamente incorretos não resolvam adotá-los em salas de aula para serem moderninhos.

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