Este mês o Papa esteve em Madri na Espanha. Pudemos constatar mais exemplos de como a Igreja Católica, assim como outras religiões, mostra-se extremamente hipócrita. O Papa Bento XVI autorizou a arquidiocese católica de Madrid a perdoar as mulheres que tivessem abortado. A condição para que recebessem o “perdão divino”, entretanto, teria sido a participação nas celebrações da visita do papa e a confissão do “crime” a um padre católico. Como disse Leonardo Boff:
Voltamos ao tempo medieval em que se vendiam perdões e indulgências a quem podia pagar, como estas mulheres que puderam pagar suas passagens e estar em Madri. E as demais milhões de mulheres do mundo inteiro? Continue lendo em Absolvição do aborto entrou no mercado em Madri.
Pense que todos os dias uma mulher faz um aborto no mundo. O número com certeza é bem maior que esse. E o número de abortos clandestinos com certeza é bem maior do que o número de abortos legais. Uma das principais consequências que a ilegalidade do aborto provoca é não termos dados exatos. Tratamos a questão do aborto jogando-a para debaixo do tapete. Qualquer mulher com dinheiro nesse país pode ter acesso a um aborto seguro. Porém, para as mulheres pobres restam apenas macas esquecidas nos hospitais públicos, enquanto sangram e são julgadas por pessoas que se acham muito superiores a elas.
Na Espanha, o aborto é legalizado desde 1985. No site do Ministerio de Sanidad, Politica Social e Igualdad você encontra vários dados como estatísticas, estudos e pesquisas sobre aborto na Espanha. Inclusive, estudos sociológicos com foco na gravidez na adolescência, contemplando a questão de jovens imigrantes, comportamento sexual e uso de métodos contraceptivos. Isso é essencial para entender que a legalização do aborto beneficia não só as mulheres, evitando mortes, mas também a população. Quando o aborto é legalizado deixa de ser crime para se tornar uma questão de saúde pública. Por meio da legalização o Estado pode ter dados concretos sobre a questão do aborto no país e formular políticas públicas mais eficazes, que não se limitem apenas a estimular o uso da camisinha. Há milhares de razões para as pessoas fazerem sexo sem prevenção e em muitas delas o Estado pode intevir por meio de campanhas públicas, educação, pesquisas de novos métodos contraceptivos e assistência social. Portanto, há grandes chances de reduzir o número de abortos a partir de sua legalização. A primeira mudança é que o aborto não será mais ignorado, mas observado e catalogado. Nossa luta é principalmente por um aborto seguro, gratuito e raro. Quem luta pela vida não pode lutar apenas por fetos, mas também pelas vidas das mulheres.
As mulheres espanholas não querem o perdão do Papa, querem ser livres para tomarem decisões que afetam diretamente suas vidas. Para algumas mulheres uma gravidez pode ser a realização de um sonho, para outras um pesadelo. Devemos dar o direito a todas de decidirem como querem viver suas vidas. Essa proposta de perdão representa também um total desconhecimento das dores femininas, dos dramas e situações de violência, como afirma Ivone Gebara:
Ao conceder o perdão ao “crime” do aborto na linguagem que sempre usaram, de forma elitista revelam o rosto ambíguo da instituição religiosa capaz de ceder ao aparato triunfalista quando sua credibilidade está em jogo. Podem abençoar tropas para matar inocentes, enviar sacerdotes como capelães militares em guerras sempre sujas, fazer afirmações públicas em defesa da instituição condenando pobres e oprimidas, abrir exceções à regra de seus comportamentos para atrair jovens alienados dos grandes problemas do mundo ao rebanho do Papa. A lista dos usos e costumes transgressores de suas próprias leis é enorme…
Por que reduzir a vida cristã a pão e circo? Por que dar um espetáculo de magnanimidade em meio a corrupção dos costumes? Por que criar ilusões sobre o perdão quando o dia a dia das mulheres é cheio de perseguições e proibições às suas escolhas e competências? Continue lendo em Dois pesos e duas medidas: o aborto perdoado em Madri.
E após essa viagem a Madri veio a notícia de que em 2013 o Papa virá ao Brasil. Então, fica a dica para fazermos como espanholas e espanhóis, desenvolver um aplicativo de GPS que nos avise quando estivermos perto do Papa para fugir dele e continuarmos nossa luta por direitos que a Igreja Católica insiste em negar. Os direitos sexuais e reprodutivos são parte integral dos direitos humanos, garantir que as pessoas possam usufruir deles é indispensável para alcançar o bem-estar físico, mental e social. Por isso, é necessário que se respeite o direito das pessoas de decidir de forma livre e responsável sobre questões relacionadas a seus próprios corpos. Veja no vídeo como funciona o APPAPA, um aplicativo para celular que avisa quando você está a 500 metros do Papa, para evitar encontrá-lo e ouvir suas opiniões hipócritas e medievais sobre sexualidade e aborto.

“Quando o aborto é legalizado deixa de ser crime para se tornar uma questão de saúde pública. Por meio da legalização o Estado pode ter dados concretos sobre a questão do aborto no país e formular políticas públicas mais eficazes, que não se limitem apenas a estimular o uso da camisinha.” Acho q é por isso q no Brasil não será legalizado o aborto. O Estado não quer gastar com o que já tem que gastar hoje, criar uma nova fonte de gastos com a população não deve estar no planos deles…
Mas eu concordo com vc: a Igreja Católica continua tendo uma influência sobre o Estado que é inacreditável! Pessoas são condenadas por serem diferentes, por não poderem gerar uma criança! Por ser pecado e mta gente ter medo da Igreja, vejam bem o tanto de criança que foi abandonada pelas mães! Que futuro elas tem?
Eu tenho certo medo do abuso dessa legalização. Mas com a formulação de políticas públicas, educação, responsabilidade, funcionaria bem.
Bom, eu nunca li a Bíblia, mas eu me lembro que nela tem algo que diz que o perdão vem de Deus.
(Olhando no Google, achei: “Deus perdoa todos os pecados, desde que os confessemos – Salmo 32:5; Miquéias 7:19; I João 1:7-9″)
E não me importa se o cara é o Papa, ele não é Deus e se confessar, não quer dizer sentar num banquinho e falar com um padra/Papa/whatever eu posso me confessar aqui e agora, desde que esteja falando, com o intuíto de dizer à Deus. Logo, nem deveria existir essa idiotice, partindo do próprio princípio Cristão.
O que as religiões fazem com a imagem de Deus, é ridículo. Colocam como um Ser que pune, que julga, que ama somente uma parte seleta das pessoas.
Eu não tenho religião, mas creio em Deus. Um Deus que não é esse ai, dos retratos das igrejas.
Igrejas, aliás, que o que mais fazem bem é criar conflito, preconceitos e guerras, através de séculos.
Como foi dito no post, se o aborto fosse legalizado, poderia ter uma visão estatística, para saber onde agir, para tomar providências para que mulheres não tenham que optar por um aborto, mesmo que esse seja legalmente possível. Afinal, realizar um aborto, é fazer um procedimento clínico, há riscos e para alguns mulheres, além dos riscos físicos, há também toda parte psicológica e o que essa decisão vai acarretar. Faz mais de 20 anos que na Espanha é legalizado e nós, no Brasil, ainda colocamos religões no meio para decidir isso. Deveria ser dentro da lei há muito tempo e independente de qualquer igreja.
Eu quero estar bem longe desse cara preconceituoso (também conhecido como Papa) quando ele estiver por aqui.
Mas Telma, a idéia é justamente diminuir os gastos que são feitos com procedimentos resultantes de abortos mal sucedidos. Uma mulher que quer realizar um aborto de maneira segura custa bem menos do que alguém que o realizou de maneira insegura e agora está com uma hemorragia provocada por uma infecção. Quanto ao abuso, é claro que haverá mulheres que farão vários abortos num ano, mas elas sempre serão minoria, porque fazer aborto não é passeio ao shopping, é doloroso, o útero tem que fazer contrações para espelir o material que há nele.
Oi Letícia, obrigada pelo comentário.