Sobre Dilma

Sou uma das pessoas que votou em Dilma, comemorou e agora está bem triste com esse primeiro ano de mandato. Aquela sensação de que você confiou em alguém para fazer o trabalho da faculdade junto com você e a pessoa furou da pior forma possível. No dia em que Dilma disse: “Não vamos fazer propaganda de opção sexual”, eu chorei. Depois da lama que foram as eleições nem tinha esperanças de que o tema “direitos reprodutivos das mulheres” entrasse em pauta, mas não imaginei que em relação as questões LGBT ela seria assessorada por reacionários e intolerantes. Quando vemos as declarações do Kassab confirmando o veto a criação do Dia do Orgulho Hétero percebe-se quem está bem assessorado. Mas claro que não desisti, assim como no governo Lula vou tentar olhar para as medidas positivas e torcer para que não haja retrocessos.

Dilma Roussef, em foto da AP

Ontem, saiu na Carta Capital um ótimo artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, chamado Mulher ou Militante. Vale a pena lê-lo. Fala sobre questões de gênero que envolvem ter uma mulher na Presidência do Brasil, sobre feminismo e analisa rapidamente pontos positivos e negativos de Dilma. Estou rancorosa, mas não perdi a fé em meu voto, por isso gostei muito da análise feita por Kehl. Selecionei alguns trechos:

Grosso modo, a escolha de Dilma parece ter sido mais pautada por razões políticas e interesses de classe do que pelo imaginário de gênero. Se assim foi, o mérito é todo dela. Durante os oito anos de seus dois governos, o presidente Lula perdeu grandes oportunidades de politizar os eleitores ao definir a relação necessariamente conflituosa entre a sociedade e seus governantes a partir de metáforas ligadas à vida familiar. Fiel ao seu estilo de “homem cordial”, na acepção de Ribeiro Couto e Sérgio Buarque de Hollanda, Lula desde o início se apresentou como pai dos brasileiros. Antes da campanha de 2010, já apresentava sua futura candidata como a “mãe do PAC”. Dilma comprou o rótulo por conveniência, mas teve o mérito de não encarnar o estereótipo maternal que faria par com o estilo carismático e paternalista de Lula.

Quanto à identificação de Dilma com as causas feministas, vale lembrar que a presidenta em toda sua longa trajetória política – se contarmos desde os anos de militância no grupo VAR-Palmares, na década de 1970 – nunca foi uma típica militante feminista. Como outras raras mulheres independentes de sua geração, as opções políticas da jovem Dilma Rousseff pautaram-se antes por causas universais – liberdade, igualdade, socialismo – do que pelas lutas de gênero, que, no Brasil, só se impuseram com mais força depois da derrota das organizações armadas. Quando as pioneiras das causas feministas começavam a levantar suas bandeiras, por aqui, a militante “Wanda” estava na cadeia.

Os preconceitos sexistas mais pesados contra ela surgiram durante a campanha, não por parte de eleitores, mas dos adversários políticos. O modo violento como a campanha de José Serra tentou explorar a polêmica sobre o aborto, a meu ver, não teria sido o mesmo com um candidato homem. Ao tentar caracterizar a possível simpatia de Dilma pela legalização do aborto como um grave delito de opinião, Serra apostou na convicção popular de que a mulher que não criminaliza o aborto é um monstro que mata criancinhas. Dilma não enfrentou a polêmica com a seriedade que o caso exigia, mas pelo menos não desceu tão baixo. Em todo caso, nunca saberemos até onde a oposição teria chegado se a notícia de um suposto aborto de Mônica Serra não tivesse vindo à baila.

A própria Dilma, se fosse mais “maternal”, teria defendido com maior firmeza a qualidade de vida dos operários da Usina de Jirau, submetidos a condições subumanas no canteiro de obras da Camargo Corrêa. Ou tentaria conciliar a brutal agenda desenvolvimentista com medidas efetivas de preservação da natureza, em prol da saúde das próximas gerações. O compromisso com as causas feministas poderia levar Dilma Rousseff a se manifestar de maneira mais clara no debate sobre a descriminalização do aborto, mas parece que o escândalo que se promoveu em torno do assunto, durante a campanha, contribuiu para transformar o aborto numa espécie de tabu político para a atual gestão.

Outras questões relativas à saúde das mulheres, no entanto, ainda podem ser contempladas no governo Dilma. Os casos mais óbvios seriam novas políticas de proteção à maternidade, com ênfase no amparo às mães adolescentes. Além disso, toda e qualquer melhora no atendimento à saúde de maneira geral beneficiaria as mulheres, acostumadas a cuidar não apenas da saúde dos filhos, mas também de pais, sogros e maridos. Ainda há tempo para esperar da primeira mulher presidente do Brasil medidas que diminuam a desigualdade de gênero no País, sobretudo nas classes mais baixas.

Essa esperança se deve ao fato de Dilma, em sua trajetória pessoal e política, ter escolhido as alternativas progressistas que se apresentaram à sua geração. Afinal, a característica mais marcante da presidenta é sua longa trajetória como militante radical de esquerda. Continue lendo em Mulher ou Militante.

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3 thoughts on “Sobre Dilma

  1. Dois cents: ah, se a decepção fosse só na questão de gênero…
    eu também votei na Dilma, crente que os avanços que conseguimos com o Marco Civil da Internet e as discussões contra o péssimo PL84/99 (aka Lei Azeredo, a favor dos bancos e contra os brasileiros na rede) seguiriam…
    aí veio a Ana Holanda. E o MinC, que era nosso, virou sucursal do ECAD…
    Existe uma questão política aí, Bia. E, infelizmente, vai além do gênero.

  2. Com 16 anos eu resolvi que queria votar. Eu nem sabia o que era política, não sabia quem seriam meus escolhidos, mas eu iria adiantar a ‘obrigação’ dos 18 e votar aos 16.
    Uma pena, que em 8 anos que eu tenho o poder de voto, eu só tenha de fato pensado nele, nas últimas eleições. E não foi um pensamento profundo não, escolhi candidatos que já haviam feito algo favorável ao Direito dos Animais e sobre a natureza. A maioria dos candidatos que escolhi foram do PV. Inclusive, votei na Marina.
    Eu achava política algo chato, desnecessário e reclamava em dias de eleições, de ter que sair da minha casa e ir votar. Desejava o poder de escolher se deveria votar ou não, porque assim, eu não votaria.
    Mas, de um tempo pra cá, lendo mais sobre o feminismo, parece que a minha mente deu uma expandida. Me fez lembrar do quanto eu gosto de História, de saber informações que não são devidamente publicadas, de não pensar igual todo mundo e surpreendentemente ver que a adolescente que queria o direito ao voto, voltou.
    Não vou te dar minha opinião sobre a Dilma, para não falar asneira. É como eu disse, (infelizmente) sou “nova” no que diz respeito a enteder de política, mas aos poucos chego lá!
    E espero que ela possa realizar ações refletidas no passado, na época que ela ia além.

  3. Lucia, tenho plena consciência que há outras questões envolvidas, usei o recorte de gênero porque foi o que a Kehl usou e achei bem bacana.

    Letícia, muito bacana ver essa abertura para o pensamento político. Nem acho que todo mundo deve escolher um partido e etc., mas pelo comentário da Lucia dá para vermos o quanto é importante pensar e refletir sobre política no Brasil, não só nas eleições, mas sempre. É por isso que o feminismo também é um mobvimento político.