Quem paga a conta?

A notícia é: Em restaurante de outro século, mulher ganha cardápio sem preço. O Da Gemma é um antigo restaurante da Itália, com preços salgados, que possui 2 tipos de cardápio. Um com os preços, que são entregues aos homens. E outro sem preços, que são entregues as mulheres. Quando duas mulheres vão ao restaurante eles entregam os cardápios com preços as duas, pois não sabem quem irá pagar a conta. No fim tudo é justificado como sendo uma gentileza. Aí lendo os comentários você encontra pérolas do tipo:

Se todos os lugares fizessem isso, seria instituído o retorno do cavalherismo, o que eu acho lindo!

Enquanto existir esse tipo de mulher que acha que o fato do homem pagar uma simples conta de restaurante a diminui em alguma coisa, continuaremos no caminho da extinção da gentileza

Se a gente parar para avaliar a mudança comportamental, é devido à mulheres que pensam assim que os homens estão tão perdidos em relação ao seu papel na relação. A mulher ficou tão independente que mudou o comportamento dos homens também, e pra pior!

A questão fundamental é a seguinte: não há problema em alguém pagar a conta, mas há problema em o restaurante pressupor que o homem fará isso. O restaurante fazer isso não vai trazer de volta o cavalheirismo perdido dos tempos de outrora. Porque vivemos em outros tempos. E acredite, se os homens não são mais os cavalheiros elegantes de antigamente, isso não é culpa das mulheres independentes, mas sim da falta de gentileza da humanidade. Uma sociedade cada vez mais individualista, é uma sociedade que não preza a gentileza com o próximo. E além de tudo, crises econômicas também interferem nas nossas relações com o dinheiro. Então, é importante saber também que até a gentileza muitas vezes tem seu preço.

Cena do Filme "O Amor Custa Caro" com Catherine Zeta-Jones e George Clooney.

Já falei um pouco sobre gentileza e pagamento de contas no texto Às Mulheres que não querem direitos iguais. Não acho legal pautar minhas relações amorosas no dinheiro, mas se uma mulher quer que o cara sempre pague a conta, o que tenho a ver com a vida dela? O que quero é que ela não pregue que isso é o melhor para todo mundo. Individualmente ela pode exigir essas coisas e talvez até encontre um cara que sempre pague a conta. Ou talvez não, e passe a achar que rachar a conta ou pagá-la algumas vezes não é tão ruim assim. Uma mulher pode fazer suas escolhas.

É claro que pagar uma conta muitas vezes pressupõe uma relação de poder. Há casos em que alguém paga sua conta em um restaurante, mas vai ficar exigindo obediência depois, no estilo: “ah mas eu pago tudo o que você quer, então mereço que você faça algo por mim”. É contra esse tipo de relação que vejo muitas mulheres independentes levantarem a voz contra. Além disso, cada pessoa é um indivíduo com desejos e histórias pessoais. Talvez eu ache que a menina que quer sempre ter a conta paga tenha relações de carência mal resolvidas, mas aí voltamos a mesma questão, o que tenho a ver com a vida dela? A minha preocupação é que ela não pregue que todas as mulheres querem suas contas pagas por homens. Porque mulheres são, assim como os homens, pessoas muito diferentes umas das outras nas suas particularidades.

Mas no meu mundo-ideal-feminista, pensado dentro da estrutura do capitalismo (em que dinheiro é sinônimo de liberdade), a mulher que quer sua conta sempre paga por um homem continua existindo, assim como também será possível haver o homem que quer sua conta sempre paga por uma mulher. O meu feminismo não atua nos relacionamentos individuais, no sentido de que nunca vou virar para uma amiga que é dona-de-casa e está adorando e dizer: olha, você tem tem que arrumar um trabalho para não depender do seu marido. O que faço é lutar para que ela tenha direito a aposentadoria como dona-de-casa; que se ela se separar existam cursos de capacitação para pessoas que estão há muito tempo fora do mercado, além de toda estrutura jurídica para que se houver um caso de violência ela tenha todo apoio material e psicológico. E claro, brigo quando ela diz que a vida dela é melhor que a das outras mulheres, porque apoio totalmente o fato dela ser dona-de-casa, mas não aceito que isso seja padrão.

É claro que existem relações de poder em qualquer relacionamento, não importa quem ganhe mais ou menos, essas relações sempre vão existir. É um pouco minimizado quando os dois ganham igual, mas mesmo assim haverá uma luta pelo poder interno da relação, afinal são duas pessoas com suas histórias de vida ali. Tem muita mulher que não se separa de um casamento falido porque não quer ser chamada de divorciada. Em oposição, tem mulheres de 30 anos que mesmo vivendo um noivado ruim decidem casar para separar em 3 meses, pois não suportam a idéia de serem solteiras com 30 anos, preferem ser divorciadas. Quantas paranóias precisamos carregar num estado civil?

Eu olho para minha amiga que largou tudo para ser dona-de-casa e mãe, que adora ficar com os filhos o dia inteiro, que chama o marido de “docinho-de-coco” e tal. Eu olho e me preocupo se um dia essa fantasia vai acabar, mas a vida é dela. Eu só posso estar do lado dela e lutar para que ela tenha todo apoio para se reeguer se um dia seu conto de fadas acabar. Porque minha vida é outra, sem filhos, independente, mas é também uma vida em que não há garantias de felicidade eterna. É a vida que podemos escolher porque somos mulheres que podem escolher, enquanto outras tantas não escolhem, apenas vivem o que a vida lhes traz. Gentileza é lutar pela liberdade de todos. E isso não tem que ser exclusividade do homem num restaurante.

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11 thoughts on “Quem paga a conta?

  1. Não colocarei o meu comentário e sim o da minha avó. Ela diz:
    Isso de homem pagar a conta sozinho nos restaurantes, os fazia se acharem no direito de conseguir de nós tudo o que queriam. E antigamente era assim mesmo, se o rapaz tinha dinheiro e cordialmente pagava tudo, sem que meu pai precisasse colocar a mão no bolso, a ele era dado o que desejasse.
    Nunca gostei disso, me sentia comprada.

    Transcrevi a visão que a minha avó passou para a família, falando sobre o assunto.

  2. Adorei Bia. De fato falta gentileza no mundo e sobra gente com animo pra se meter na vida dos outros. Ando bem cansada desta inversao de comportamentos. Beijos,

  3. Olá Srta. Bia,

    Acompanho regularmente o seu blog, assim como o de outras blogueiras feministas e quase sempre me identifico com as ideias que defendem. Mas, às vezes, claro, surgem discordâncias.

    Achei muito interessante a sua frase em relação à sua amiga dona-de-casa:
    “Eu olho e me preocupo se um dia essa fantasia vai acabar, mas a vida é dela.” Também tenho algumas amigas (e cunhadas) assim, desistiram de exercer uma profissão para ficar em casa, e considero que a minha opção de trabalhar e batalhar por uma carreira é melhor e mais segura. Divido todas as despesas da casa com meu marido, faço as minhas próprias aplicações financeiras, nunca quis isso de conta-conjunta, etc.

    Por outro lado, me pego com certa frequência pensando que a minha vida de mulher independente e batalhadora pode ser tão fantasiosa quanto a da dona-de-casa em tempo integral. E se eu perder o emprego e não conseguir mais colocação no mercado (quase 40 anos, já viu)? E se eu tiver uma doença incapacitante e não puder mais trabalhar? Lá se acaba também minha fantasia de mulher emancipada, não? Fico na mesma situação que elas: à mercê da boa vontade do maridão.

    E não necessariamente a vida delas é uma “fantasia cor-de-rosa”. Se elas vivem com seus maridos uma relação séria, sólida, em que, mesmo sem ter salário, contribuem para a consolidação da situação financeira da família (fazendo investimentos e aplicações, administrando bens imóveis, etc) e estão amparadas pela lei, elas podem muito bem encarar um divórcio e se sair bem, ou pelo menos, não muito mal. Com pensão garantida, plano de saúde, propriedade do imóvel, etc.

    Enfim, as possibilidades da vida são muitas e eu nem sempre tenho certeza de que há realmente uma única opção certa e uma errada.

    Um beijo pra você,
    Meg

  4. Meg, super obrigada pelo comentário. E concordo plenamente com o que disse, inclusive no mesmo parágrafo que você citou coloquei a frase: “Porque minha vida é outra, sem filhos, independente, mas é também uma vida em que não há garantias de felicidade eterna”

    Porque a minha vida não é melhor que a dela, é apenas a vida que eu escolhi, o que não me dá garantias de ser mais feliz, nem nada do tipo. Com certeza não há opções certas e erradas, o que existem são nossas escolhas naqueles momentos específicos.

  5. Nossa e uma pena que ainda existam mulheres como vc, pois eu jamais vou admitir que um homem pague a conta pra mim, nao sou objeto. Cavalheirismo e podre, homem abrir porta afff e o fim, gracas a deus conquistamos nosso espaco.

  6. Então, ana carolina, eu luto para que as mulheres façam escolhas, sem haver obrigações. Não acho que qualquer cavalheirismo é ruim, acho sim que podem existir gentilezas que podem ser feitas por homens e mulheres, independente de gênero. Mas se você não gosta que abram a porta do carro para você, tudo bem. Para mim o que foi conquistado é justamente isso, o direito de eu decidir se quero que um homem abra a porta ou não, ou se eu abro a porta para as outras pessoas.

  7. Pingback: Sobre Gentileza | Groselha News

  8. Gostei muito do texto Bia. Sempre quando saio com alguém e quero dividir a conta, a resposta standard é: não é machismo, eu sei que você pode pagar, é pelo gesto. Pois é, mas por que não pode ser um gesto meu também querer dividir? Também estou me divertindo e aproveitando o momento. Se insistem, eu tendo a aceitar, até pra não estragar o momento com uma discussão, e retribuo pagando da próxima vez. Por exemplo, se pagou o jantar, eu pago as entradas do cinema, e assim vai.
    Vai um pouco da segurança de cada uma também. Se a mulher encarar o ato de o cara pagar a conta como uma compra, ai talvez ela se sinta obrigada a fazer coisas que não quer, porque o cara pagou. Como não encaro dessa maneira, não tenho lembrança de ter me sentido objeto pelo simples fato de que me pagaram uma coisa tão trivial como um jantar.

  9. Rachel, entendo plenamente que é complicado lidar com certas questões porque no seu caso pode não ser machismo, mas em outros pode. Então, o que gosto é de avaliar a situação sem esquecer de que o meu caso não é a regra.
    O que você falou sobre segurança é outro ponto bem interessante. Obrigada.

  10. Com certeza Bia, é a velha máxima de que cada caso é um caso. Quem sabe amanhã ou depois posso eu vir a sentir na pele também. A gente nunca sabe quem vai encontrar por aí…