O Drama da Criança Bem Dotada.

O livro de cabeceira do mês no grupo de terapia é O Drama da Criança Bem Dotada de Alice Miller. O subtítulo é: Como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. Sim, o livro é pesado, apesar de ter apenas 107 páginas. Refere-se a todos nós, cuja sensibilidade infantil foi usada consciente ou inconscientemente, por nossos pais ou quem cuidou de nós quando criança, para servir a seus próprios propósitos frequentemente egoístas. Nas apresentações do livro, esclarece a quem se destina:

Você foi amado(a) incondicionalmente pelo que realmente era? Ou o foi pelos seus feitos, sua graça, sua beleza, adequação, obediência ou, ainda, por seu precoce treino ao banheiro, por ser muito “boazinha” (“bonzinho”), “não dar nenhum trabalho”, ter aprendido muito cedo os seus “deveres”, por ter cuidado dos irmãozinhos? Em suma, você era o “orgulho” da família? Se aconteceu isso, você faz parte da grande maioria das pessoas e, então, este livro é para você, para nós que fomos amados, ou seja, amados sob a condição de que correspondêssemos às expectativas, por vezes, insaciáveis, daqueles que cuidaram de nossa “educação”.

Enfatiza que continuaremos a ser reféns dessas emoções reprimidas em nossas infâncias enquanto continuarmos negando o fato de elas terem existido e nos marcado, tendo dessa forma, estabelecido um padrão que prevalecerá em quase todas as nossas relações. A sua conclusão mais chocante para nós é que, em decorrência dessas negações e repressões, até as nossas psicoterapias só poderão deixar de ser manipulativas e controladoras na medida em que todos nós pararmos de negar essas histórias tristes e essas nossas verdades reprimidas e atuantes.

Sim, sempre fui o orgulho da família. E é difícil escarafunchar essas relações. Especialmente a relação com minha mãe. Mãe e repressão? Olá, Freud! Porém, o livro não foca em psicanálise técnica. O interessante é que a autora narra diversas situações em que pais tentam acertar, mas erram. E é importante perceber como não existe ninguém perfeito, não há receita de bolo para criar filhos. Mães e pais são pessoas comuns, portanto tem seus egoísmos, humores e desejos. Quando vejo um psicólogo dizer que crianças não precisam ir a escola até 3 anos, precisam de amor e carinho e não de brincadeiras com gente estranha, significa que ele quer anular os outros papéis das vidas dessas pessoas. Crianças não são mesmo obrigadas a ir para escola com essa idade, mas creches são fundamentais para mães e pais poderem se dedicar a outras atividades. Ser pai ou mãe em tempo integral tem que ser uma escolha. Não sê-lo nessas condições, não significa se eximir das responsabilidades de amor, proteção e segurança. A Ladyrasta me mandou um link ótimo esses dias: I’m one bad mother. I work. Então, sem me alongar porque ainda não compreendi o livro por inteiro, deixo alguns trechos:

As mulheres furam seus mamilos para pendurar brincos, posam para jornais e contam, orgulhosas, que não sentiram dor e que se divertiram com isso. Não há do que duvidar nessas afirmações, pois essas mulheres tiveram que aprender muito cedo a perder a sensibilidade. E o que não fariam hoje em dia para não sentir a dor da garotinha que sofreu abuso sexual pelo próprio pai, e precisou imaginar que o atentado fora prazeroso? Uma mulher que sofreu abuso sexual quando criança, que negou a realidade de sua infância, está constantemente fugindo dos acontecimentos passados — com a ajuda de amantes, álcool, drogas ou ações excepcionais. Ela precisa estar continuamente “ligada”, a fim de não sucumbir ao “tédio”, não pode se permitir um segundo de tranquilidade, quando seria possível sentir a ardente solidão da realidade de sua infância, pois teme esse sentimento mais do que a morte — a menos que tivesse a sorte de aprender que o reavivamento e a consciência dos sentimentos da infância não matam, libertam. (p. 16)

A adaptação precoce do bebê leva à repressão das necessidades da criança por amor, atenção, empatia, compreensão, participação. O mesmo vale para as reações emocionais diante de falhas consideradas graves, o que faz com que determinados sentimentos (como: ciúme, inveja, raiva, abandono, impotência, medo) não sejam permitidos nem na infância nem na idade adulta; o que se torna mais trágico à medida que essas são pessoas aptas a sentimentos diferenciados. Podemos perceber isso quando elas descrevem fatos de sua infância ou dos quais não tinham medo. Trata-se, em geral, de experiências com a natureza, quando podiam sentir sem ferir seus pais ou torná-los inseguros, diminuir seu poder, ameaçar seu equilíbrio. Mas é muito estranho que essas crianças incrivelmente atentas e sensíveis, que se recordam exatamente de como, por exemplo, com quatro anos de idade, descobriram a luz do sol no brilho da grama, aos oito “não notaram nada” ao verem sua mãe grávida; “não sentiram qualquer ciúme” pelo nascimento dos irmãos; e, com dois anos de idade, permaneceram sem chorar e “muito comportadas” enquanto algumas vezes militares invadiam e vasculhavam suas casas durante o período de ocupação. Desenvolveram toda uma técnica para manter os sentimentos longe de si, pois uma criança só os pode vivenciar em companhia de uma pessoa que as entende e as aceita com esses sentimentos. Quando esta pessoa não está presente, quando a criança tem de arriscar perder o amor da mãe ou de sua substituta, ela não consegue vivenciar, secretamente, “só para si”, mesmo as reações emocionais mais naturais, tendo de reprimi-las. Mas elas ficam arquivadas como informações em seu corpo. (pg. 21)

Robert, 31 anos, quando criança não podia ficar triste nem chorar, sem perceber que tornava sua amada mãe infeliz e profundamente insegura, pois “jovialidade” foi a característica que a salvara quando menina. As lágrimas de seus filhos ameaçavam seu equilíbrio. Mas a criança extremamente sensível percebeu, dentro de si, a totalidade do abismo reprimido de sua mãe, que estivera num campo de concentração quando criança e que jamais falara sobre isso. Somente quando o filho, já crescido, perguntou-lhe diretamente a respeito, ela disse que havia sido uma das oitenta crianças que precisaram assistir à ida de deus pais para a câmara de gás. Nenhuma das crianças tinha chorado! (pg. 33)

Um pai, frequentemente assustado quando criança pelos ataques de ansiedade de sua mãe durante as crises esquizofrênicas, sem jamais receber uma explicação a respeito, gostava de contar histórias de terror à sua amada filhinha. Ria dos medos da garota, para depois confortá-la dizendo: “É apenas uma história de faz-de-conta, você não precisa ter medo, você está comigo”. Dessa forma, conseguia manipular o medo da criança, sentindo-se forte. Seu desejo consciente era o de dar algo bom à filha, algo que não tinha tido: conforto, proteção, explicações. Mas o que ele lhe passava, inconscientemente, era o medo de sua infância, a expectativa de uma desgraça e a questão incompreendida (também de sua infância): por que a pessoa que amo me traz tanto medo? (pg. 34)

Conta ainda a história de um paciente que passou seu primeiro ano de vida com sua mãe, que o criava sozinha, em extrema miséria, e cuja guarda foi posteriormente transferida para um órgão público. O garoto foi transferido de um abrigo para outro, sendo fortemente maltratado. Mas quando foi encaminhado a um tratamento psiquiátrico, seu estado melhorou muito mais rapidamente do que os de outros pacientes, com históricos parecidos com o seu, porém menos chocantes. Como pôde esse homem, que sofrera tantas barbáries em sua infância, ter se livrado dos seus sintomas tão rapidamente? Fora uma dádiva divina? Muitas pessoas gostam desse tipo de explicação e evitam a pergunta decisiva. Mas não precisaríamos perguntar por que Deus não quis ajudar também os outros pacientes desse psiquiatra, e por que foi acudir esse homem, que na sua infância foi surrado sem piedade? Foi realmente a dádiva divina que esteve ao lado desse homem na sua idade adulta ou a explicação pode ser muito mais simples? Se esse homem tivesse tido uma mãe que, apesar da miséria, fosse capaz de lhe dar amor, proteção e segurança em seu primeiro ano de vida, indiscutivelmente, o período mais decisivo de sua vida, ele estaria melhor equipado para trabalhar os maus-tratos futuros do que alguém cuja integridade estivesse abalada a partir do primeiro dia, alguém que não tivesse quaisquer direitos sobre a própria vida, que precisou aprender desde o começo que o único sentido de sua existência era o de “fazer sua mãe feliz”. (pg. 50)

Referência: MILLER, Alice. O drama da criança bem dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. Tradução de Claudia Abeling. São Paulo: Summus, 1997.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

3 comentários sobre “O Drama da Criança Bem Dotada.”

  1. Esse pequeno grande livro faz parte da minha vida, eu fazia terapia ja ha algum tempo, havia ja um certo grau de auto-conhecimento e devido a isto pude sobreviver pós-leitura, é verdade foi o livro mais impressionante, e que fez escavações num terreno inimaginável, tive convulções e febre, e eu nao sou mulher de ficar mexida com qualquer coisa viu. Recomendo a leitura para quem de verdade quer se descobrir profundamente e sugiro aos rasos melhor não mexer.

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