O Nascimento da Mulher.

Quando penso em transexuais e transgêneros, a famosa frase de Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se”. Ganha um novo conceito. Nascer e tornar-se mulher são dois acontecimentos intrínsecos e relacionados, muitas vezes tardio devido a  cirurgia, que marcam uma nova vida, um novo começo.

Foto de Rodrigo Lôbo e Hélia Scheppa. Clique para abrir a galeria.

Ontem a Suely Oliveira, enviou uma matéria do Jornal do Comercio chamada “O Nascimento de Joicy”. Acredito que é a primeira vez que vejo um veículo da mídia tradicional, no caso o jornal de maior circulação do estado de Pernambuco, tratar a questão da cirurgia de mudança de sexo de uma maneira tão bela, delicada e informativa.

João Batista, 51 anos, era agricultor. Porém, há muito tempo sabia que era mulher, Joicy.

Moravam na Caatinga, no Campo do Magé, área rural de Alagoinha (13.761 habitantes, 225 quilômetros da capital). Não poderiam prever que, décadas depois, o filho iria usar esmalte cor rosa-pitanga e sofrer por um rapaz enquanto ouvia música de novela. Não sabiam que ali na roça quem os ajudava era uma menina. Aí o chamavam de João. João que sempre foi muito zeloso, João que nunca deu trabalho, João que até plantou um jardim ao lado da casa. Só para eles esse menino deixou saudade – há tempos Joicy sabia que ele existia apenas aparentemente. Foi por isso que decidiu, apesar do olhar triste e reprovador da mãe, findar com ele. Um dia, deitou-se em uma maca e dormiu. Ali matou João. Ali nasceu Joicy. Sua história, acompanhada durante cinco meses, começa a ser contada hoje nessa reportagem especial, publicada até a próxima quarta-feira (13).

É interessante perceber que Joicy sempre soube que era mulher, mas fenotipicamente não reproduz o exagero feminino de outros transexuais. Aos poucos vai usando vestido, pintando a unha. O cabelo é curto, não usa maquiagem. Por isso, Joicy também sofre preconceito entre seus pares. E, com Joicy aprendemos que pessoas não são encaixotadas em formatos e rótulos, são inúmeras as nuances que nos fazem ser quem somos, somos mulher quando queremos ser mulher, quando nos sentimos e nos enxergamos mulher. Vivendo no interior de Pernambuco, onde os preconceitos e a religiosidade ainda são muito aflorados, Joicy encontra nas mulheres e nas crianças a humanidade necessária para não se sentir abandonado.

Acreditou que tudo ficaria bem quando comprou a casa depauperada onde até hoje vive, perto do matadouro de Perpétuo Socorro, distrito de Alagoinha. Antes chegou a morar um mês em São Paulo vendendo comida para passarinhos no Mercado Municipal. Não gostou. Voltou. Melhor cortar cabelo de agricultor e trabalhador de casa de farinha. Ali podia ser mais mulher. Na casinha depauperada, onde cozinha e banheiro quase se confundem, onde não existem esgoto nem água encanada (ninguém no distrito, aliás, tem), há um diploma onde se lê: “Certifico que João Batista da Silva participou com dinamismo e maestria do curso de cabeleireiro revelação (30h/60h) ministrado pelo cabeleireiro paulista Carlos Carvalho. Deus seja louvado.” Certificado no vidro, secador, cadeira de cabeleireiro. Os símbolos de um novo tempo onde certamente ouviria menos a palavra “não”. “Adotei esta profissão porque era mais fácil para pessoas do meu tipo.” Um dia ouviu no rádio que poderia tirar o pênis. Resolveu que só faltava aquilo para ser feliz. Foi aí que seu doloroso e demorado rito de passagem começou.

É importante frisar que João se tornou Joicy por meio de uma cirugia no SUS. A importância do sistema público de saúde realizar esse tipo de cirurgia é imensa. Significa incluir socialmente essas pessoas. Significa promover saúde para pessoas que nascem num corpo que não as pertence. Que passam a vida sentindo-se incompletas. Não deixe de acompanhar a história de Joicy e de compartilhar com as pessoas. Nosso mundo precisa de mais humanidade e tolerância, Joicy está aí para nos mostrar o quanto nossa coragem e vontade de viver é fundamental para mudarmos não só a nós, mas também o mundo.

Update: Se você acompanhou a reportagem completa, ficou sabendo que infelizmente Joicy está com seu canal vaginal fechado, por conta do pós-operatório em que ocorreram problemas. Se quiser ajudá-la financeiramente, a Fabiana Moraes, produtora e repórter da matéria, divulgou a conta bancária de Joicy:

Caixa Econômica – AG 0775 -  C/C 5836-3 – OP 023. Importante a OP porque é conta do programa bolsa-família. O  depósito pode ser realizado em qualquer agência da Caixa ou casa lotérica.

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One thought on “O Nascimento da Mulher.

  1. Bia, obrigada pelo belo texto. Importante vc frisar o valor dessa cirurgia pelo SUS, já que existe um movimento para findar com a portaria no congresso. abraços,
    fabiana moraes.