Monografia, day 102.

Contos Escolhidos – Lydia Davis

Revista Piauí, n° 47. Agosto/2010

O PEIXE

Ela olha atentamente para o peixe, pensando em certos erros irremediáveis que cometeu naquele dia. Agora o peixe foi cozido e ela está sozinha com ele. O peixe é para ela?– não há mais ninguém na casa. Mas ela teve um dia cheio de aborrecimentos. Como pode comer esse peixe, que está esfriando sobre um tampo de mármore? E, no entanto, o peixe, também ele, imóvel como está, e desguarnecido de seus ossos, despojado de sua pele prateada, nunca esteve tão completamente só como está agora: violado de maneira definitiva e observado por essa mulher de olhar cansado, que cometeu o último erro de seu dia e fez isso com ele.

A MÃE

A menina escreveu um conto. “Mas seria muito melhor se você escrevesse um romance”, disse a mãe. A menina construiu uma casinha de boneca. “Seria muito melhor se fosse uma casa de verdade”, disse a mãe. A menina fez um pequeno travesseiro para o pai. “Seria mais útil se fosse uma colcha”, disse a mãe. A menina cavou um buraquinho no jardim. “Seria muito melhor se tivesse cavado um buraco grande”, disse a mãe. A menina cavou um buraco grande e foi dormir dentro dele. “Seria muito melhor se você dormisse para sempre”, disse a mãe.

A DÉCIMA TERCEIRA MULHER

Numa cidade de doze mulheres havia uma décima terceira. Ninguém admitia que ela morava ali, nunca chegava nenhuma carta para ela, ninguém falava com ela, ninguém perguntava por ela, ninguém vendia pão para ela, ninguém comprava nada com ela, ninguém devolvia o seu olhar, ninguém batia na sua porta; a chuva não caía em cima dela, o sol nunca brilhava sobre ela, o dia nunca nascia para ela, a noite nunca descia para ela; as semanas para ela não passavam e, os anos não corriam; sua casa não tinha número, seu jardim era descuidado, a trilha do jardim não era percorrida, sua cama não era usada para ninguém dormir, sua comida não era comida, suas roupas não eram vestidas; e no entanto, apesar de tudo, ela continuava a viver na cidade sem se magoar com o que aquilo lhe causava.

COISAS PERDIDAS

Elas estão perdidas, mas também não estão perdidas, e sim em algum lugar do mundo. Na maioria, são coisas pequenas, embora duas sejam maiores, uma é um casaco e outra é um cachorro. Entre as coisas pequenas, uma é um anel valioso, outra é um botão valioso. Estão perdidas para mim e de onde eu estou, mas elas também não sumiram. Estão em algum lugar e estão lá talvez para alguém, para outra pessoa. Mas se o anel não estiver num lugar para outra pessoa, mesmo assim não está perdido para si mesmo, está em um lugar, só que não é o lugar onde eu estou, e o botão, também, está num lugar, só que não é o lugar onde eu estou.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

Um comentário sobre “Monografia, day 102.”

  1. Bia, que coisa engraçada, eu geralmente não leio as ficções da Piauí e agora que li um desses microcontos reparei que eu tinha escrito um texto parecidíssimo em 2003: “O Final de Nossas Vidas”. Envolve também peixes, aquários, erros e a sensação de ter errado (http://migre.me/2YJ6C). Mas acredito que esse aí é melhor.

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