Mulher e Mídia. + Salário, Twitess, edredon, etc.

Ano passado, a Cynthia veio a Brasília participar do Seminário promovido pelo Conselho Federal de Psicologia: Mídia, quem é o dono dessa voz? Fui toda interessada não só em ver a Cynthia, mas também sua mesa de debate: Contra a exploração da imagem da mulher, do homem, da criança e do adolescente na publicidade; que contou também com Maria de Fátima Nassif e Marisa Sanabria.

A discussão se pautou no fato da publicidade ganhar cada vez mais espaço e com isso procurar novas formas de seduzir o consumidor, por meio de recursos estilísticos, entretenimento, imagem e atrativos para os sentidos. Atualmente, a linguagem publicitária influencia até a programação da tv. Porém, da mesma forma que a programação televisiva tem sua qualidade questionada, a publicidade também deve ter, pois no caso da mulher ela abusa do uso do corpo feminino e transforma a aparência num valor cultural exacerbado. A publicidade também tende a reafirmar papéis sociais tradicionais, como o homem-provedor e a mulher-desprotegida, ou a dona-de-casa eficiente e o homem-competidor. Há uma clara tendência conservadora no uso de estereótipos que ainda pode ser facilmente encontrada nos valores culturais da sociedade brasileira.

O Seminário virou livro que pode ser baixado gratuitamente aqui. Vale a pena ler! Lembrei desse seminário semana antepassada, quando o Fantástico exibiu uma matéria em que perguntava ao telespectador: Por que modelos femininas ganham mais que modelos masculinos? Brinquei no twitter que na outra semana, o Fantástico perguntaria: Por que atrizes pornôs ganham mais que atores pornôs? Então, Ladyrasta me questionou a razão dessa diferença. Junto com outras meninas tentamos descobrir se essas seriam as únicas profissões em que as mulheres ganham mais que os homens ou não. Eu acho que são, justamente porque como modelo ou como atriz pornô a mulher está preenchendo um papel que a sociedade machista a permite preencher. O mercado de moda feminina é muito maior que o de moda masculina, mas moda é algo tipicamente feminino em nossa sociedade. O mercado de filmes pornôs é gigantesco e seu grande público é masculino, público que quer ver belas atrizes fazendo acrobacias sexuais.  Vejo filmes pornôs, mas é fato que eles não são feitos para mim. Tirando essas duas profissões as mulheres ganham menos que os homens em todas as outras nas estatísticas. Teve gente que levantou a bola de que as atrizes de Hollywood ganham mais, porém acho difícil, nas listas de poderosos da Forbes, por exemplo, elas sempre são minoria. Há cotas para executivas mulheres em países desenvolvidos como a Noruega, porque em todo mundo ainda há desigualdade de gênero. Quando uma mulher é motorista de metrô é comum a acusarem de estar tirando o sustento de uma pai de família, como se ela não fosse uma mãe de família. Nos telejornais brasileiros as apresentadoras têm que ser bonitas. Quando não o são ganham no máximo um cargo de comentarista de economia ou política. Me diga se Boechat, Boris Casoy, Renato Machado preenchem requisitos de beleza impostos pela mídia?  Agora veja se suas companheiras de bancada, Renata Vasconcelos e Ticiana Villas Boas, não são muito mais bonitas que Miriam Leitão e Lúcia Hippólito.

Então veio o #BBB10 com a @Twittess. Sempre soube que ela era odiada por muitas pessoas e nunca entendi a razão. A menina descobriu uma forma de ficar famosa no Twitter, usou disso para ganhar notoriedade  ao dar entrevistas e fazer o papel de moça bonita que aparece no jornal falando sobre a última novidade da internet. Com isso acabou aparecendo mais que muita gente que parece determinar o que tem relevância na internet. Se o Marcos Mion ganha prêmio de melhor twitter, não sei que relevância é essa. Entendo que pessoas que lutam há muito tempo para que as mídias sociais sejam respeitadas como veículos de comunicação e trabalham com isso, sintam-se chateadas por ver alguém que não tem experiência dar entrevistas, mas nada justifica o linchamento. Ao entrar no BBB uma orda enfurecida pediu sua cabeça, e qual a razão? Ela é falsa, nojenta, mentirosa, odeio ela, roubou o namorado da outra? Isso é motivo para xingá-la de piranha, vadia, idiota?  Aceito argumentações sobre sua atuação no programa, que dizem que ela era sonsa, que não jogava bem, que fez casal de propósito, porque isso são motivos dentro de um jogo como o BBB. Mas aí a menina paga um boquete embaixo de um edredon num programa de tv e é apedrejada em praça pública, por quê? Quem aí nunca caiu de boca ou conhece alguém que caiu no escurinho do cinema, num carro no estacionamento, em casa, na piscina, no dark room, num menáge? Fiquei chocada ao ver tanta gente tachando a menina como boqueteira oficial do Brasil, a foto da chupada no picolé correndo mundo. Por que linchar uma mulher por fazer sexo ainda é tão ofensivo?  Por que o ódio por uma pessoa, que pelo que eu saiba, nunca cometeu um crime? E ainda me fazem enquete para saber quem é mais bonita, ela ou a Ex? Tessália não fez papel de santa nem no twitter e nem no BBB, queria fama, deitou no edredon e recusou qualquer papel de boa moça. E é apedrejada por isso? RT @inquietudine: o dia em que os alunos da uniban invadiram o twitter! #BBB10

Geisy Arruda vai desfilar nesse Carnaval 2010. Desde que a ex-estudante da Uniban começou a colher os frutos da fama vem sendo achincalhada por ter feito lipo, por ter colocado mega hair. Que mulher pode ser famosa na mídia desse país sem ser achincalhada como puta, Brazyl? Na minha opinião, um país que aplaude propagandas de cerveja em que mulheres são apenas enfeites, deveria aplaudir Tessália e Geisy por terem traçado os caminhos certos para a fama, afinal elas estão apenas aproveitando o que o sistema da fama oferece, ou não? Será que as pessoas querem é estar no lugar delas? Ou será que as pessoas querem o corpo seminu na tv e a burca nas ruas? Tessália e Geisy são mulheres, que podem concordar ou não com minhas posições feministas, mas merecem respeito. E ao que me parece ficam ainda mais famosas cada vez que seus detratores berram jogando pedras, como se estivéssemos esperando Moisés descer com as tábuas para dizer: Respeitarás as mulheres! Deixarás as mulheres fazerem sexo quando bem entenderem! Deixarás as mulheres tomarem conta de suas próprias vidas! Vão fazer sexo e cuidar de suas próprias vidas ao invés de perderem tempo odiando pessoas que vocês nem conhecem!

Ps.: Ainda sobre mídia e mulher, importantíssimo ver o documentário Killing us Softly, que mostra como a publicidade envia mensagens que prejudicam as mulheres e incentivam a violência contra elas.

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18 thoughts on “Mulher e Mídia. + Salário, Twitess, edredon, etc.

  1. Eu detestava a Tessália não porque ela chupava o cara embaixo dos lençóis, ou porque claramente ela usou aquele bobão, ou porque fazia muita intriga… Detestava mesmo é quando o Bial chamava e ela fazia aquela voz meiga e boazinha como se fosse a menina mais ingênua… Mil vezes as outras barraqueiras como a Lia, Maroca, Lenita, que mostram mais suas garras… rs

    Beijocas

  2. Nossa, Bia. MELHOR post. Eu aqui super tentando estruturar uma linha de raciocínio pro meu TCC (que vai ser exatamente sobre esse assunto) e aí vem você e pá, escreve tudo o que eu queria dizer em poucas linhas, claro como água. Adorei, adorei, adorei. Beijo.

  3. Bia, concordo plenamente com sua argumentação a respeito do uso da imagem da mulher na mídia e sua exposição de forma machista e materialista.
    O que me incomoda em mulheres como a Tess e a Geisy é que elas próprias se promovem desta forma expondo suas intimidades e fazendo disso um produto de sucesso.
    Isso não justifica, óbviamente a placa que o público pendura no pescoço dessas mulheres mas, infelizmente este é o preço que se paga por este tipo de exposição em nosso país.
    Beijinhos

  4. Uma pequena observação pontual.

    As mulheres terem perdido mais empregos na marolinha de 2008-9 é uma coisa, até agora, bem específica do Brasil; em países onde a marolinha foi a Grande Recessão de 2008-10, a grande perda de empregos foi dos homens. http://mjperry.blogspot.com/2009/10/great-man-cession-of-2008-2009-was-real.html http://economix.blogs.nytimes.com/2009/08/10/the-mancession/ http://www.dailyfinance.com/story/people-work-the-great-recession-is-worse-for-men/19328712/ http://www.foreignpolicy.com/articles/2009/06/18/the_death_of_macho (sim, são links do meio do ano passado, com a recessão a pleno vapor; essa discussão se perdeu agora que os capitalistas tentam nos convencer que tudo voltou ao normal, o que é uma grande conversa fiada – pergunte à Espanha, à Grécia ou a Portugal)

  5. Ótimo texto! Fiquei embasbacada, no pior sentido possível, com os casos recentes da Geisy e da twittess, que até então nunca tinha lido sobre.
    Eu acho engraçado eles fazerem isso quando na privacidade se masturbam pensando nessas mulheres que ficam achincalhando, ou, no caso das mulheres que achincalham, ficam sonhando em ir ao BBB e arrumar um peguete gostosão por lá…
    E fala sério, safado e FDP não deveria ser o cara que traiu a namorada em rede nacional?
    Ah, ele é homem, não tinha como resistir à tentação, pobrezinho… =/ *ironia*
    Mesmo que elas se exponham de forma que não me exporia, não acho-as inferiores, imorais, etc. por causa disso, afinal, é direito delas fazer o que bem quiserem desde que não agridam qualquer lei – o que não ocorreu, ao contrário, as pessoas que estão infringindo a lei ao denegrirem a imagem dessas mulheres.

  6. Parabéns pelo excelente post Bia! Concordo com você! Realmente ainda há um falso moralismo, principalmente, quando o assunto envolve uma mulher.
    Um exemplo são esses atos que qualquer pode fazer,mas se uma mulher estiver envolvida, então é caso para inquisição.
    Ainda bem que nós não desistimos e somos guerreiras sim!
    Sobre melhores poderosas, encontrei essa lista do ano passado, com o nome das principais CEO da tecnologia no mundo:
    http://br.hsmglobal.com/notas/43337-as-executivas-mais-influentes-do-setor-tecnologia

  7. bia,

    o post ficou maravilhoso. excelente. não gosto da tEssália pq ela represenat exatamente essa exploração da beleza , é a brurrinha-bonitinha-sonsa, que temos por aí e faz sucesso aos montes. mas nunca concordei que jogassem pedra nela pelo episódio do edredon, afinal eal não estava ali sozinha.
    quanto ao resto do post, o tratamento dado á mulher peal publicidade está perfeito e é algo que nunca é debatido.
    quantoa geisy ainda tem mais continua-se no estereótipo, bonitas só as magras. cheinhas, nunca. daí as modelos de campo de concentração do SPFW. bj minha musa-monange!

  8. Parabéns Bia pelo ÓTIMO post!!

    Acho que é o melhor post que li sobre toda essa situação da Tessália e a Geisy. Até agora a maioria das pessoas apenas jogaram pedras, como se elas tivessem cometido um crime. Elas tiveram o livre arbítrio para fazerem da vida delas o que bem entenderem, e não cabe a nós julgá-las.

    Como a Marjorie disse acima, Melhor post!

    Beijos

  9. Excelente texto, parabéns pelos argumentos! Como feminista não discordo de uma vírgula do que escreveu no sentido de imagem e crucificação injusta da mulher. Mas devo dizer que há uma diferença que me incomoda muito nos casos Geisy e Tessália.
    Deixando de lado a impressão de sonsa que as pessoas tem sobre a Tessália é realmente um absurdo ver o quanto ela foi ridicularizada hipocritamente. Po, quem é que não faz sexo debaixo do edredon? E quem é que não gosta?
    No caso Geisy, por mais que eu também ache um absurdo do ponto de vista feminista essa recriminação por causa de uma saia, me decepciona o fato dela carregar consigo essa imagem de mulher escandalosa atriz de filme pornô que a mídia/publicidade sustenta e que ela continuou sustentando para ganhar fama. É como se ela destruísse todo o belo discurso que fez na repercussão dessa polêmica. Decorado ou não, tirei o chapéu por ela ter dado a cara pra se defender mantendo sua integridade e ter quebrado as pernas do moralismo.

  10. BTW, que fique claro que eu não estou fazendo julgamento de valor sobre se é certo ou errado pagar boquete em rede nacional e pela Internet, na frente do papai, da mamãe e da vovó.

    Mas usar como argumento o discurso de “quem aí nunca caiu de boca(…) num carro no estacionamento, em casa, na piscina…” é falacioso que chega a doer.

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  12. Pingback: Sem vestido não pode? « Teresa não existe

  13. Oi, Bia.

    Adorei o post sobre o assunto.
    Não acompanho BBB, mas foi impossível não ficar a par da situação da Tessália fora da casa. A hipocrisia era tamanha em todos locais da cidade, veículos, etc.

    Isto me lembra um caso recente que tivemos em Salvador sobre a professora que dançou o pagadão “Todo enfiado”.

    Nos três casos o que me irrita é que no fim, elas vestem a imagem criada de mulher objeto para conseguir a tão falada fama. Me irrita, mas nem por isso fico criticando de forma abusiva ou pejorativa esta escolha delas e de tantas outras que já vimos por aí.

    Trabalho com vendas há um bom tempo e neste ramo de contato direto com o cliente, seja em vendas ou atendimento (agência), é muito fácil ouvir de colegas (mulheres) que usam de artimanhas para fisgar uma conta ou venda, como vestir algo mais atrativo e até mesmo aceitar almoçar ou jantar (mesmo sabendo que há intenções não relacionadas a negócios), quando o cliente é representado por um homem.

    Inclusive em épocas de procura por emprego escutei em entrevistas que era preferência da empresa contratar mulheres para vagas de atendimento ou vendas por que “são mais bonitas e tem mais jeitinho com os prospects”.

    Definitivamente, não compartilho de tal ideia Não preciso utilizar meu corpo ou jeitinho para conseguir trabalho, converter um prospect, efetuar uma venda. Também não acredito que as mulheres precisam “usar artimanhas” para conseguirem o que querem.

    Porém, a grande questão não é o fato da mulher optar por entrar nos padrões de beleza e expor seu corpo para ganhar fama e sim o fato das mulheres e homens verem isto como um absurdo e imperdoável.

    Quer dizer, se ao invés do personagem de Crepúsculo que ficou sem camisa o tempo todo no filme, fosse uma mulher que ficasse de top e micro short, qual seria a repercussão?

  14. Somos um povo hipócrita que gosta de discordar do que convém [ou do que está na mídia] e omitir-nos quanto ao que poderia ser feito de melhor para o país. Mulheres que fazem sucesso sem rótulo? As mesmas jornalistas citadas no texto. Quando colocado aqui, dá a impressão de que elas estão onde estão apenas por serem bonitas, e não por terem competência suficiente para ocupar as respectivas bancadas, pois de mulheres bonitas e competentes o mundo está cheio, mas há uma viseira [unissex] que não permite colocar as duas características na mesma embalagem, somadas a uma personalidade blindada da opinião alheia. Caímos então no mesmo preconceito que o texto sugere existir, e existe :) . Poderia citar também algumas atrizes, mas é dispensável. Vale lembrar também que, dentro ou fora da internet, as criticas mais ácidas acerca do comportamento dessas mulheres, são outras mulheres que tem feito.

    E as pessoas não aplaudem este tipo de comportamento por medo do “diferente”, pela inveja visto a falta de coragem de fazer o mesmo, e porque é “dificil” admitir, categoricamente, essa inversão de valores que transformou a liberdade em libertinagem, uma vez que vale tudo pelo Ibope [ou qualquer outra forma de retorno que se mensure]. Como nos demais comentários, reforço: se isto existe, é porque homens E mulheres dão espaço pra isso. Vivemos na sociedade do parecer, não do ser. Já a relevância na internet, tem mais a ver com o tamanho de nosso alcance [o que e onde buscamos] cá do que a importância do conteúdo em si.

    Quanto a qualidade da publicidade: o controle, desde sempre, esteve na mão do consumidor. Então, infelizmente, o produto que está sendo entregue pela publicidade [que não é só TV] e pelos demais players da mídia, nada mais é do que o resultado do que o povo, numa média, gosta e/ou “precisa ver” para consumir, gerar retorno. Mas já temos no ar campanhas de celular e margarinas tratando da relação de pais separados com seus filhos, campanhas de carro tocando com singularidade na questão da fidelidade conjugal, e sandálias mostrando que a terceira idade fala de sexo sim. É um começo. Pra desespero dos [falsos] moralistas.

    Bom post.

  15. Bia, matou a pau. Por vezes penso nessa divisão de papéis estúpida da sociedade e me fixo na minha qualidade de mãe solteira, única provedora da minha família – estado que me abre os olhos para tantas semelhantes em mesma situação (privilegiada, diga-se de passagem) – justamente por causa do preconceito, inclusive de outras mulheres, que vêem com péssimos olhos o estado “híbrido” de mulher que trabalha, tem filhos e não depende de ninguém. Seria confortável se isso mudasse algum dia…

  16. Pingback: O Feminismo & Eu.