Groselha News

Uma Feminista com Uma Garrafa de Groselha na Mão.

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Mayara, Obama e a imprensa ridícula.

julho 12th, 2009 · 43 Comments · Marie Claire

Conversando com Estela, na última sexta-feira, descobri a fanfarra ridícula que a imprensa brasileira e internacional forjou com uma foto em que os presidentes Obama e Sarkozy parecem olhar para a bunda de Mayara Tavares, representante brasileira do UNICEF na reunião do G8.

Mayara Tavares tem 17 anos e é líder comunitária em Santa Cruz no Rio de Janeiro. Estava lá representando seu trabalho, tendo como objetivo encontrar e discutir com outros jovens questões relacionadas a pobreza, educação, mudanças climáticas, etc., e entregar propostas aos líderes do G8. Conquistou a tarefa graças a uma pesquisa que começou há três anos para identificar problemas de jovens de comunidades carentes no Rio. Vê-la ridiculamente menosprezada nesse tipo de jornalismo marrom e sensacionalista é uma vergonha que só piorou com a exploração da notícia. O Jornal Nacional fez uma reportagem digna de tablóide sobre o assunto e ainda colocou uma enquete em seu site perguntando: “Você acha que Barack Obama olhou para a jovem brasileira que chamou a atenção de Nicolas Sarkozy?” O G1 entrevistou o pai de Mayara e estampou a manchete: ¨Minha filha é um espetáculo!” Um pai orgulhoso fala da filha e do trabalho que ela realiza, mas a manchete tem que ter ligação com a polêmica tablóide, não é? Porque é Brasil, né? E tudo tem que acabar em Carnaval, samba e caipirinha.

E Mayara? Que por ser bonita, jovem e brasileira foi reduzida apenas a um objeto de desejo como tantas outras mulheres? Gostou de aparecer dessa maneira? Alguém lhe pediu autorização para que divulgassem uma foto sua retratando-a dessa forma? Não entro nem na questão de que ela tem 17 anos, pois toda mulher deve ser respeitada, independente da idade. A maioria dos links deste post são de reportagens do G1, onde encontrei o maior número de informações sobre a polêmica, mas note que quando o assunto é a voz de Mayara, suas opiniões e seu trabalho no encontro do G8, não são feitas longas matérias, apenas citam em 4 linhas um resumo do que ela disse em uma entrevista a rádio ONU. Ainda bem que antes da viagem o RJTV apresentou uma entrevista com Mayara, falando sobre sua vida, o local onde mora, seu trabalho, objetivos e desejos.

“Eu quero fazer uma faculdade, eu quero chegar no mais longe que eu possa alcançar, porque depois que eu descobri que eu tenho os direitos, meus direitos, eu acho que eu vou seguir em frente até eu alcançá-los, até eu me tornar uma adulta, mas uma adulta para ajudar os outros jovens que estão pra nascer a conquistar os direitos deles a cada dia.” Mayara em entrevista a Edney Silvestre.

Obama realmente não olhou, e segundo outras péssimas manchetes foi inocentado pelo vídeo. Já Sarkozy realmente não importa. É com muita tristeza que vejo uma jovem lutadora, que conquistou um lugar muito especial como representante do UNICEF no Brasil ser mostrada como um objeto, envolvida numa polêmica que não se preocupa em mostrar qual a importância de sua representação no G8, quais seus projetos sociais e como ela se sentiu. Ela é uma menina linda e por isso mesmo merece ser retratada como desejar, como ela escolher, e não com olhos ansiosos por escândalos, piadas machistas, risos despreciativos e opiniões de que ela deveria era ter ficado feliz por ter aparecido nos jornais. Meu repúdio ao jornalismo raso que explora uma jovem descaradamente para obter audiência forjada sobre preconceitos, mentiras e estereótipos machistas. Até os pais de Mayara já foram ouvidos, e afirmam que ela quer ser reconhecida pelo que realizou e não pela alcunha de “uma brasileira admirada pelo presidente americano”.

Parabéns a Mayara pelo seu trabalho. Parabéns a Obama que foi sensível e educado ao ajudar uma outra representante a descer as escadas. Ainda há muito a se fazer para que as mulheres sejam ouvidas e não apenas vistas por seus atributos físicos. É claro que podemos querer ser bonitas e não há nenhum problema em mostrar essa beleza, mas todas merecemos respeito, em qualquer lugar, em qualquer momento, até mesmo na simples ação de subir ou descer uma escada. Cada dia é um degrau a mais para alcançar e garantir o simples e essencial direito do respeito.

#Ouça a entrevista que Mayara concedeu a rádio ONU.

#Updates: Já encontraram outra foto com outra bunda, pois ao que parece não há nada para se divulgar sobre o evento. Da lama parece que ninguém quer sair. Pois como disse, Toni Belloto, é um alívio ver uma bunda em dias de cenário político tão turbulento. A mulher não é dona do seu corpo, pois ao que parece a bunda é patrimônio nacional. Quem também falou sobre o assunto:

#Lola em Mundo Bundão.

#Flavita em Índice de fodabilidade.

#Maria Frô republicou e rerepublicou no Vi o Mundo.

#Marjorie em Men are presidents, women are butts.

Essa é na minha opinião a verdadeira foto do evento.

Essa é, na minha opinião, a verdadeira foto do evento.

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43 Comments so far ↓

  • Nanni.

    Foi triste mesmo a cena. Mas não foi só no Brasil isso não, toda a imprensa mundial falou sobre isso. Mas acho que ninguém riu no ar depois de passar a matéria como o ancora da Globo News, foi uma falta de respeito tremenda.

    Oi Nanni,

    Obrigada pelo seu comentário. Também vi que não foi apenas a imprensa brasileira que montou em cima do escândalo, até citei no primeiro parágrafo “imprensa brasileira e internacional”. Não vi o âncora da Globo News, e a notícia é mesmo engraçada para muita gente, mas o problema está justamente aí, de acharmos graça de uma foto falsa que tenta acabar com todo mundo. É uma falta de respeito com todos.

  • iaiá

    palmas!
    tb estou cansada desa coisificação da mulher, especialmentea brasileira! nada acrescentar ao brilhante texto! beijos. tou fã.

    Srta. Bia responde:
    Bem vi que você comentou no dia mesmo em que publiquei o post, como acabaste de dizer no twitter. Fico feliz que tenha gostado. É uma pena a imprensa reproduzir esses estereótipos e comportamentos tão desgastados e preconceituosos.

  • Ariane Fonseca

    Achei lamentável esta cena também. O Brasil quer tanto mostrar que não é como os outros países o veem: baderneiro, que só pensa em mulheres, futebol e samba, mas quando tem chance de mostrar isso a imprensa insiste em bater numa mesma tecla.

    O que mais me intrigou foi que, mesmo as imagens mostrando que ele estava ajudando a outra jovem descer as escadas, até enquete o povo fez. Isso é sensacionalismo puro!

    Srta. Bia responde:
    Lembro que a primeira vez que vi a foto nem dei bola. Vi num portal de internet, espera-se esse tipo de polêmica baixa de alguns portais de fofoca, porém, ver o jornalismo da tv e os maiores meios de comunicação do país entrando na onda do tablóide é muito triste.

    E ao invés de mostrar o vídeo e falar que a polêmica é ridícula, não. Fazem enquete. É o cúmulo da falta de bom senso e a prova de que ainda teremos muito o que lutar em relação ao respeito.

  • Mas não pode olhar? — Se7e segundos

    [...] da Reuters sugere que Obama e Sarkozy se viraram para olhar a derrière da brasileira Mayara Oliveira: destaque no mundo todo! Cinegrafistas mostraram que norte-americano não teve malícia. Já o [...]

  • Sigrist

    Brilhante, parabéns. E o meu argumento inicial de que ao menos a foto foi fantástica – afinal, o fotógrafo teria captado um momento singular – foi totalmente refutado pelo vídeo.

    Mas o mais legal foi mesmo saber que Mayara nem tem 18 anos e já tem planos e ideias bem fortes para o futuro.

    De novo, parabéns.

    Srta. Bia responde:
    A foto pode ter sido muito boa, mas acho que há algo muito errado em divulgá-la da forma que foi feita. Acho que até mesmo deveriam ter pedido permissão a Mayara, pois estavam retratando-a de uma maneira que ela talvez não gostaria de ver sua imagem relacionada.

    A imprensa deveria era enaltecer uma jovem que é engajada na luta por seus direitos.

  • Sergio Telles

    Nem um extremo, nem outro. A polêmica da foto é que fez nossa elite prestar atenção no trabalho da menina, que é excepcional. Ninguém por aqui sequer sabia que tinham ido 4 adolescentes de cada país à Itália para esse encontro paralelo ao G14.

    E fica claro que as curvas brasileiras mexem a cabeça de qualquer homem no mundo todo, mesmo o Sarkozy que tem a esposa que tanto badalam (não vejo nada demais nela, pra mim é altamente sem sal) não resistiu à brasilidade dessa menina.

    As 2 coisas são apreciáveis: a sensualidade e a competência dessa jovem. E num mundo de oportunidades, ela está tornando sua competência famosa por conta da polêmica causada por sua sensualidade.

    Positivíssimo, de nada adianta competência sem o marketing. Viva Mayara.

    Srta. Bia responde:
    Acredito que o caminho para que a elite brasileira preste atenção no trabalho realizado por jovens como Mayara não é a exploração de fotos como essa. A imprensa pode sim começar a dar voz a esses jovens e tantos outros, basta noticiar que jovens brasileiros participaram do encontro do G8.

    Até porque, a maioria das pessoas nem ficou sabendo quem Mayara é, pois a maioria dos jornais a identificou como “uma brasileira”. As pessoas só souberam da polêmica. A competência dela por seu trabalho está fora de questão na grande maioria das reportagens.

    E discordo também que “fica claro que as curvas brasileiras mexem a cabeça de qualquer homem”. Disse no post que as mulheres podem sim serem admiradas por sua beleza, mas de maneira respeitosa e se assim autorizarem. A maioria das mulheres não deseja obter reconhecimento apenas por seus atributos físicos. E aposto que os homens são capazes de controlar seus instintos primitivos e olhar para uma mulher sem salivar.

  • MaxReinert

    Well done!
    Eu vi essa foto em alguma capa de portal e andei evitando ler a matéria sobre ela… achei de tão mal gosto que sabia que existia uma história escabrosa por trás.
    Como sempre, a imprensa brasileira fazendo jus ao seu diploma!

    Srta. Bia responde:
    também tinha visto a foto na capa do portal Terra e não dei bola, pois é isso que se espera de certos portais de internet. A questão só me preocupou mesmo quando conversei com a Estela e ela me contou do tamanho da polêmica que a imprensa montou, especialmente a imprensa que diz ser séria, como o Jornal Nacional.

    Não entro nem no mérito do diploma, mas se a própria imprensa forja notícias ridículas como essa, o que se esperar então da maioria da população, não é mesmo?

    Super obrigada pelo comentário. E defitivamente, “marketing de mulher não é o rabo”. Pena que até aqui nos comentários veio homem dizer o contrário.

  • MaxReinert

    PS: E vou fazer de conta que não li a bobagem que o Sergio Telles escreveu ali em cima, para quem marketing de mulher é o rabo!

    Ai ai…..

  • Mayara, Obama e a imprensa ridícula. « Maria Frô

    [...] Mayara, Obama e a imprensa ridícula. Ir aos comentários Por srtaBia do blog Groselha News [...]

  • Sagesse

    O melhor post seu q eu já li.

    Um beijo.

    Oi querida,

    que bom que gostou. Foi um post escrito até bem rápido, mas muito motivado.

  • Lunna

    Bom dia Bia, eu vi algo a respeito, mas não dei importância se um ou outro olharam para a bunda da menina ou não e se olharam, não vejo problema algum. Cada um olha para o que quiser. Acho que temos coisas mais importantes para se preocupar, mas claro que a imprensa gosta desse tipo de coisa porque na verdade “nós” também gostamos. Isso vende, dá ibope e as coisas importantes que se danem. São meros detalhes. Aff.
    Beijos menina e vc? Vem para SP em agosto?

    Srta. Bia responde:
    concordo com você que temos mais o que fazer do que nos preocupar com quem olha a bunda de quem. A minha bronca é mesmo em relação a imprensa que se diz séria e monta circo ao redor de bobagens como essa. Pois as pessoas envolvidas estão tendo suas imagens denegridas por nada.

    Por mais que as pessoas gostem de ver esse tipo de pataquada, não dá para a imprensa que se diz séria também explorar esse tipo de notícia, pois só corrobora o comportamento ridículo e machista vigente na sociedade. Acredito que todos somos parte da mudança para que a mulher seja mais respeitada.

  • dama de cinzas

    Sim! Ainda falta muito para que a mulher seja vista pela sua mente, pelo que realiza e não por sua aparência. Nossa sociedade ainda está num período de transição em que as mulheres acabaram de conquistar seus direitos e isso não tem nem 100 anos e vc sabe que uma sociedade não muda radicalmente seu modo de pensar num período como esse… As mudanças externas são mais visíveis, mas os conceitos ainda ficam presos no passado…

    Eu não sou uma mulher feia, não sou linda, mas feia não sou… Mas não vejo muita graça em elogios sobre beleza, quando dizem que sou inteligente eu fico toda inchada… rs… Porque a inteligência é algo que a velhice não vai levar, apenas aprimorar… Entende?

    Beijocas

    Srta. Bia responde:
    sei que falta muito para conseguirmos o respeito que tanto almejamos para as mulheres, mas é de matar ver a imprensa que se diz séria compactuando com essa notícia de tablóide.

    Até espero esse tipo de cobertura de portais de internet, que vivem de tentar pescar pessoas por manchetes, mas veículos como o Jornal Nacional é muita apelação.

    Quanto a questão da beleza, acredito que cada mulher deve escolher como deseja ser elogiada. Pois concordo com você que fico muito orgulhosa quando me elogiam pela minha inteligência, no caso desse post, por exemplo, muita gente elogiou. Porém, acredito que as mulheres podem ganhar algo com sua beleza também, mas o importante é que ela escolha esse caminho, se quer ser capa da playboy, ótimo. Quando luto pelo direito das mulheres, luto essencialmente pela liberdade e pelo respeito de cada uma fazer o que quiser com seu corpo. No caso da foto acho um absurdo que Mayara não foi consultada se gostaria de aparecer dessa maneira, pois a foto foi feita numa posição que qualquer mulher poderia ser enquadrada.

  • Jana

    A foto tambem saiu nos jornais daqui e cada vez fico mais indignada com o oportunismo da midia mundial.

    Srta. Bia responde:
    a foto correu o mundo todo, afinal Obama é assunto mundial. E é péssimo que a grande maioria da imprensa cubra o episódio como os tablóides. E sabemos porque isso acontece, né? Porque Mayara é brasileira, porque Brasil é samba, caipirinha e mulher pelada. Replicar esses estereótipos é o maior desserviço que a imprensa mundial faz.

  • André Rezende

    Uma coisa não exclui outra, pode-se ser sensual e inteligente ao mesmo tempo, a própria Michele Obama é uma prova disso.
    Não penso que o atributo físico, a sensualidade, a atração despertada nos homens, o afeto, diminua a mulher.
    Lembro-me de um discurso de Benedita da Silva ao tirar sarro em cima de uma situação análoga, elaa relatou que não se importava com a admiração masculina, pois se estavam olhando tanto era porque deveria ser boa mesmo.

    Srta. Bia responde:
    concordo que uma mulher pode ser sensual e inteligente, porém na maneira como trataram a foto, na polêmica gerada, a grande maioria das reportagens não está nenhum pouco preocupada com o trabalho que Mayara está realizando e sim com a polêmica. E o principal, Mayara foi consultada ao ter sua imagem exposta dessa maneira? A mulher deve ter o direito de escolher como quer ser retratada, pois o intuito de replicar aquela foto em todos os jornais do mundo é simplesmente mostrar que o presidente mais poderoso do mundo olhou para a bunda de uma brasileira. O que isso acrescenta ao trabalho de Mayara? Em que isso ajuda no sentido de ela ganhar mais respeito em relação ao seu trabalho?

    Michele Obama é linda, mas alguém já tirou uma foto dela nessa posição? Alguém já republicou no mundo inteiro uma foto em que aparece apenas a sua bunda?

    É lógico que a mulher pode ser admirada por sua beleza, mas quero a voz dessa mulher dizendo que quer ser admirada por isso, que quer ver sua bunda estampada nos jornais. Quero ver o desejo dela de ser retratada da forma como achar melhor.

  • vinicius souza

    Eu não comentei aqui a primeira foto porque não tinha dados para refuta-la (veja o video que “prova” que Obama estava na verdade ajudando a jovem americana a descer a escada: http://www.tmz.com/videos?autoplay=true&mediaKey=ccb316e0-009d-498d-9d84-7b2e729657d7). Mas entre amigos, já tinha dito que “uma foto não significa rigorosamente nada” É preciso conhecer o contexto geral e principalmente a intenção de quem fotografou e de quem publicou/divulgou.

    O grande problema, além do machismo latente, é que a nossa sociedade ainda acredita piamente nas imagens que vê. Isso é milenar, cultural, tem sua face mais visível na idolatria, mas desde o advento da fotografia tem sido utilizado para os mais diversos fins.

    Como diria o professor Boris Kossoy “É necessário que se compreenda o papel cultural da fotografia: o seu poderio de informação e desinformação, sua capacidade de emocionar e transformar, de denunciar e manipular. Instrumento ambíguo de conhecimento, ela exerce contínuo fascínio sobre os homens. Ao mesmo tempo em que tem preservado as referências e lembranças do indivíduo, documentado os feitos cotidianos do homem e das sociedades em suas múltiplas ações, fixando, enfim a memória histórica, ela também se prestou – e se presta – aos mais interesseiros e dirigidos usos ideológicos. O papel cultural das imagens é decisivo, assim como são decisivas as palavras. As imagens estão diretamente relacionadas ao universo das mentalidades e sua importância cultural e histórica reside nas intenções, usos e finalidades que permeiam sua produção e trajetória. (Kossoy, 2007: 31-32)”

    Qualquer pessoa que conheça o mínimo de fotografia, sabe que TODA imagem fotográfica é manipulada. E não estou falando de photoshop. A simples escolha do ângulo, da lente e do enquadramento, separa o que se pretende mostrar do que se pretende esconder. Grandes fotos da imprensa foram feitas dessa forma (como a foto que Flávio Damm tirou em 1958 do presidente Juscelino Kubitschek esperando pelo helicóptero para inaugurar o heliporto no telhado do Palácio do Catete em que ele “parece” ter asas porque está na frente de uma águia de concreto; ou a fotografia de 1981 do fotógrafo Jair Cardoso, também publicada no Jornal do Brasil, em que o ultimo governante do regime militar aparece em uma cerimônia em trajes civis, mas espertamente o fotógrafo captou um general batendo continência em segundo plano e “botou” o quepe e a mão na cabeça de Figueiredo; ou mais recentemente, em 2008, a foto em que Lula Marques, utilizou a mesma “técnica” para colocar orelhas de Mickey Mouse no presidente venezuelano Hugo Chavez e ganhou a primeira página da Folha de São Paulo).

    Algumas vezes, essas fotos trazem mais informação para o leitor, o que é uma das funções do jornalismo. Em outras, trazem um tom de leveza e humor muitas vezes bem vindo. Mas também podem ser instrumento político capcioso e desleal.

    Por isso, muito mais importante do que as informações falsas na tal ficha fraudada da Dilma, é a sua imagem com a pecha de terrorista, assaltante e guerrilheira capturada pela polícia estampada na primeira página do “maior jornal do Brasil”…

    Infelizmente, esse tipo de coisa não pode ser levado na brincadeira, não!

    Em tempo: nem toda brasileira é bunda!!!!

    Srta. Bia responde:
    Já tinha linkado o vídeo que “inocenta” Obama no penúltimo parágrafo. E quem viu o vídeo sabe que a foto não tem absolutamente nada a ver, porém a imprensa não diz isso. Trata a foto como verdadeira e faz enquetes absurdas sobre o assunto. Na minha opinião o problema não é a fato em si e nem o fato das pessoas culturalmente acreditarem em imagens (até porque o vídeo também é uma imagem), o problema é o circo que se arma ao redor. O fotógrafo provavelmente tirou uma sequência de fotos, onde estão as outras? E por que a tv não se preocupou mais em exibir o vídeo do que a foto?

    A fotografia é mesmo uma arte, especialmente pelas fotos que você citou. E no caso da imagem da Dilma há mesmo uma guerra política para minar sua imagem para a opinião pública. Porém, Dilma está envolvida numa disputa política, sabe que isso vai acontecer. Mayara em nenhum momento imaginou que sua bunda ia parar no mundo todo. Quero muitas fotos jornalísticas, claro. Mas quero o respeito da imprensa para não transformar uma foto em um circo.

  • Lola

    Parabéns pelo texto, muito bom. É de doer o machismo que impera na mídia. A menina tá lá, num evento hiper importante, e ela só existe por causa da bunda?! Aliás, não por causa da sua bunda em si, mas por causa que sua bunda foi julgada e aprovada pelo presidente da França e, talvez, pelo dos EUA. Sua bunda sequer existiria sem o olhar masculino que a observa e aprova. E, claro, blogueiros que comentam essa matéria tem que julgar tb. Já li coisas cretinas (e racistas) dizendo que a bunda de Mayara é um espetáculo, mas seu rosto é horrível. E o cabelo, então? Por aí vai. Evidentemente, Mayara só estava no G8 para ser avaliada por sua aparência. Como, aliás, todas nós mulheres só estamos no mundo pra efeitos de decoração.

    Srta. Bia responde:
    É mesmo de matar o machismo que impera na mídia, mesmo com tantas mulheres jornalistas em cargos altos. Essa ânsia por notícias que façam sucesso e produzam polêmicas também é detestável. Pois as reportagens e comentários feitos em torno da foto são tipicamente assunto de tablóide.

    E além do que Mayara é retratada apenas por sua bunda e pela alcunha de “uma brasileira” nos jornais do mundo, reproduzindo ainda mais o estereótipo da mulher brasileira, praticamente vista como uma prostituta no resto do mundo.

    As piadas em relação ao caso também são as piores. Na coluna do Ancelmo Góis no Globo lembro de ter visto a chamada: “A bunda é do Brasil”. Fora os comentários no blog de que a mulher pode ser inteligente e sensual, como se alguém estivesse preocupado em saber o que Mayara tem a dizer.

    Espero que pelo menos o UNICEF divulgue as ações feitas por Mayara e pelos outros jovens que estavam participando do evento com o intuito de discutir melhorias para o mundo.

  • Marjorie Rodrigues

    [...] Melhor post sobre o caso — que me deu tanta raiva que eu não tive nem forças de escrever sobre. É esse tipo de coisa que  me faz sentir muita, mas muita vergonha dos coleguinhas. [...]

  • Flavita

    E a minha posição é exatamente essa, me dá vergonha e nojo que a Mayara tenha ganho notoriedade pelo fato de ter ou não uma bela bunda. A garota, aos 17 anos, consegue participar de uma importante pesquisa sobre a comunidade dela, vai pro G8 e o povo se orgulha “da sensualidade” da garota? Ah vai catar coquinho né?

    Srta. Bia responde:
    pior que nem podemos dizer que Mayara ganhou notoriedade, pois duvido que a maioria das pessoas não saibam apenas que “Obama olhou para a bunda de uma brasileira”. Pior que é muita gente acha que essa exposição é ótima, que ela tem mais é que agradecer por ter saído nos jornais. Ninguém pensa nas consequências que isso terá na vida dela, na comunidade em que atua, com as pessoas que ela precisa sensibilizar. Como bem disse o Max nos comentários do blog: “Marketing de mulher não é mostrar o rabo”. Isso só ajuda a reproduzir esterótipos e a denegrir a imagem feminina.

    conversa prolongada em troca de emails:
    Flavita: Vc tá coberta de razão. 15 minutos de fama para o derriére, só. Pq lá fora é “uma brasileira” mesmo, nem nome e sobrenome ela tem. O q eu já li de comentário estúpido nessa linha: olha só que bacana, todo mundo está falando da garota! Até o pai dela ficou deslumbrado. Que sociedade é essa em que o ápice da carreira de uma mulher é ser a gostosa da vez? às vezes eu acho que a gente anda pra trás, de verdade.

    Enfim, me resta a esperança de que existem as que fazem parte da rsistência

    Srta. Bia responde:
    Quando li a reportagem sobre o pai falando que a “filha é um espetáculo” não achei que ele estivesse fazendo um papel necessariamente ruim, senti mais que era um pai orgulhoso. Porém, a manchete é bem chamativa e relacionada a polêmica tablóide.
    Hoje ainda estão fazendo circo em cima da notícia:
    http://extra.globo.com/geral/casosdecidade/posts/2009/07/10/familia-de-mayara-da-puxao-de-orelhas-em-obama-sarkozy-204016.asp
    Mas é uma coluna de fofoca, esperamos coisa do tipo. Acredito que os pais provavelmente não têm noção da maneira como Mayara foi exposta e estão fazendo graça, mas nós sabemos que o assunto é mais sério. Não culpo os pais, pois o machismo ainda é grande na sociedade, mas continuo repudiando cada vez mais a imprensa por se tornar tão rasa.

    Flavita: Eu tendo a ter uma leitura bem negativa nessas situações até pq historicamente a família é sempre a primeira a explorar sexualmente as mulheres, especialmente nos países pobres. Achei a matéria do Extra bem melhor, por incrível q pareça (no sentido do pai expressar de forma mais clara o papel da filha no G8). Bonita ela é mesmo, não acho demérito. O fim do mundo é sempre sermos reduzidas a isso, como se não nos restasse alternativa.

    Mesmo q haja responsabilidade das famílias, a imprensa deveria estar vários passos adiante e ponderar melhor o q é ou não notícia. Mas tb é exatamente por isso que hj vivemos essa transição (traumática para alguns) q vai rachar de vez o jornalismo. Mais cidadãos produzindo conteúdo para dar voz a quem não tem. Pluridade, por favor.

  • Índice de “fodabilidade” « E agora José?

    [...] Update: A srta Bia também fala sobre o assunto aqui. [...]

  • Sergio

    Será que pra trabalhar nas organizações Globo tem que ser alienada? Como é que as jornalistas (além DOS jornalistas, que ser homem não é nenhuma desculpa…) deixaram passar isso? O G1 faria uma enquete “Quem é mais gostosa, a Fátima Bernardes ou a Sandra Anemberg?”. Será que elas não perceberam que é a mesma coisa?

    Deram manchete que a Mayara chamou a atenção de líderes mundiais por causa da sua BUNDA??? Srta., a imprensa é ridícula mesmo, essas chamadas seriam uma vergonha na capa da Contigo, que dirá aparecerem no jornal que é o carro-chefe de uma grande emissora. Que vergonha!

    Srta. Bia responde:
    cito muito a Globo no meu post, mas tanto a imprensa nacional como internacional tratou o assunto como fanfarra e expôs uma adolescente de maneira ultrajante. É triste também perceber que numa redação com muitas mulheres esse tipo de pauta passa para a edição final do maior jornal televisivo do país.
    Algumas vezes acredito que o mundo pode estar mudando, que estamos conseguindo mais igualdade, mas aí me aparece uma notícia como essa, estampando para quem quiser ver que a imprensa e a sociedade ainda são extremamente machistas. Uma vergonha, realmente.

  • Lola

    Escrevi um mini-post sobre o assunto, e te citei como referência, Bia:
    http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2009/07/mundo-bundao.html
    Quer submeter este post ao meu concurso de blogueiras?

    Claro que quero!!!

  • Karen Giovanni

    É uma vergonha!!!

    Srta. Bia responde:
    realmente não há muito o que se dizer, a não ser expressar a vergonha e indignação sobre o caso.

  • Éris

    Eu também achei ridículo a Globo ficar batendo nessa tecla e nada falarem sobre o trabalho da guria! É revoltante se esforçar tanto e só ser notada porque alguém resolveu vê-la como um objeto, um enfeite.

    Srta. Bia responde:
    a Globo e todos os meios de comunicação do Brasil e do exterior transformaram tudo num circo ridículo. E para a imprensa parece não importar o que se foi fazer lá, mas sim o escândalo e a manipulação dos fatos. E é essa sociedade que acreditamos que está melhorando que nos mostra como deve ser tratada uma jovem que batalhou e chegou até uma reunião do G8 por méritos próprios. Como já disseram outros, uma vergonha.

  • Cássia

    Eu acabei de ler na página principal da Veja o Toni Belloto falando que foi uma “bela imagem” e com o título da coluna “Viva a bunda brasileira”. Ao querer comentar lá e pesquisar sobre o que realmente essa menina admirável faz, cheguei até aqui. Deplorável! E chega a ser engraçado ver homens defendendo que “não podem se segurar ao ver uma bunda”, ah… parecem cachorros de rua. Até isso é vexatório! E parabéns à Mayara, que chegou lá pelo trabalho que faz… porque se quisesse fama pela bunda, ela estaria de shortinho dançando em algum grupo tipo B por aí.

    Beijos.

    Srta. Bia responde:
    entrei no site da Veja e vi a coluna. Toni Belloto exalta a bunda brasileira como um alívio nesses dias de cenári político cheio de conflitos. Uma atitude tão nojenta. E claro, não cita o nome de Mayara, não diz o que ela foi fazer lá. O que importa mesmo é só a bunda. Por que ainda me espanto com isso? Não é engraçado como as pessoas acham que é válido a bunda de uma jovem ser notícia? Será que deveríamos todas mostrar nossas bundas para que os homens fiquem mais felizes no mundo? Pena ver mais um artigo sobre isso, repúdio a maneira como as pessoas pensam que podem usar a bunda de alguém.

    Super obrigada pelo comentário. E esse é o objetivo de escrever um post sobre um assunto que muitos acham que nem devia ser escrito devido a irrelevância. Ao pesquisar na internet as pessoas podem encontrar várias vozes e ter uma visão plural dos fatos.

  • Notas: claro que Obama não olhou para onde todo mundo queria que ele tivesse olhado | Livros e afins

    [...] na Categoria Dicas de sites sobre livros e outras coisas | Sem Comentários » Mayara, Obama e a imprensa ridícula – CLARO que Obama não olhou para a bunda de Mayara (SIM, ela tem um nome e muitos outros [...]

  • Dicas de 14.7.2009 — QueroTerUmBlog.com!

    [...] Mayara, Obama e a imprensa ridícula – CLARO que Obama não olhou para a bunda de Mayara (SIM, ela tem um nome e muitos outros méritos que os propalados pela imprensa, blogosfera e afins). [...]

  • Thiago Melo

    Ótimo Blog !

    Não tenho mais o que falar sobre esses fatos…espero que a sociedade mude e aquela frase que não lembro o autor tenha mais raizes em nossas educação

    “…deixar um planeta melhor para nossos filhos
    ou deixar filhos melhores para nosso planeta…”

    It’s evolution, baby

  • Giovanna

    Fazia tempo que não lia um texto tão sensato. Parabéns! Vou seguir o blog!!!

  • Lunna

    Oi Srta. Bia…
    Boa noite, voltei para avisar que deixei presentinho pra ti… Beijinhos

    Ps. O moço ali em cima (Sérgio Telles) deve estar perdido entre os diplomas, não acha?

  • Alex

    Meus caros, é essa imagem que nós brasileiros passamos lá pra fora. Lembrem- se e abram os olhos, quem degride a imagem do nosso país não são os forasteiros, são os próprios brasileiros. Aqui é terra de cuzão, ninguém sabe de nada, todos diabos não tem chifre
    e todo mundo é filho de alguém.

  • Rumo à Estação Irrelevância « Universo Tangente

    [...] Post inspirado em Mayara, Obama e a imprensa ridícula. [...]

  • Nada de poesia hoje… « @teoriasimpossíveis

    [...] tem a história da bunda da menina e dizeres estupidos sobre o que realmente importa é que uma brasileira se destacou no difícil [...]

  • Achados na web | Ladybug Brasil

    [...] mais bola fora da imprensa. Desta vez com Srta [...]

  • renata

    tá cada vez mais difícil assistir a um bom noticiário no brasil… é tudo alienação e sensacionalismo… parabéns pelo texto ! gostei mto!

  • Feira de Links #2 | Groselha News

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    [...] “Se a Geisy posar pra Playboy eu mato ela!” Pára, pára, pára! Entendo que “matar” é no sentido figurado, mas não dá pra falar isso nem de brincadeira. Não dá pra falar de violência contra a mulher nem de brincadeira (viu, Angeli?) Temos meia dúzia de pessoas preocupadas com os direitos das mulheres no Brasil, e agora até elas vão começar a jogar pedra na Geisy? É claro que eu acharia melhor que nenhuma mulher tivesse que posar pra Playboy, nunca. Mas o que me incomoda não é ela tomar essa decisão (que é uma decisão dela). O que me incomoda é saber que no Brasil é muito difícil uma mulher jovem, de classe média-baixa ou pobre, ganhar um dinheiro razoável ou ter “notoriedade” se não mostrar o corpo. Pare e tente se lembrar: quantas vezes você viu uma mulher jovem ser notícia na mídia pelo seu trabalho? Provavelmente só quando tinha Playboy no meio. Porque no Brasil até quando uma jovem está recebendo um prêmio pelo seu trabalho ela é reduzida a uma bunda. [...]

  • O Feminismo & Eu.

    [...] e para que Tessália possa praticar sua sexualidade embaixo do edredon com liberdade.  E para que uma jovem seja valorizada por seu papel num evento e não por seus atributos físicos. Luto para que todas as mulheres tenham voz numa [...]

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