# O tempo me atropelou de uma maneira incomunicável. Tudo é para ter sido feito ontem, mas não fui eu quem decidiu quando. A vida simplesmente aconteceu ao cruzar com minha avó no hospital. E tudo tomou uma proporção muito maior depois de terça-feira. São dias de silêncio e estranhamentos. O desconhecido chega e me pega com a mão na boca, com a sensação de que o maior elo da minha família simplesmente não existe mais. Desconheço qualquer maneira de ler o que irá acontecer. Que o tempo tenha gratidão de nós. Ela ainda tinha planos aos 92 anos.
#Dentro do tempo galopante e ofegante, acumulam-se pelas mesas tudo o que não consigo ler. Os afazeres acadêmicos primeiro, pois é preciso crescer formalmente. Porém, nesse momento de reencontro com uma matriarca, ao meu redor, que não está deserto, repousam diversas mulheres:
Sob o Sol da Índia de Julia Gregson. Quando vi o título fui remetida a Comer, Rezar, Amar, mas em comum só mesmo a Índia, o fato de serem best-sellers e contarem histórias de mulheres que transformam suas vidas. Então, pode jogar pedra na moda indiana…rs. Hare Baba! Estou na página 155. Viva é uma jovem que possui um passado misterioso. Pretende voltar à Índia, onde viveu na infância e onde perdeu os pais. Para isso, aceita ser dama de companhia de duas jovens burguesas inglesas e um rapaz extremamente peculiar. A leitura flui apesar da riqueza exagerada na descrição de alguns detalhes. É, na verdade, uma grande novela em que vamos descobrindo pouco a pouco sobre os personagens e suas motivações para viajar, é também uma trama cheia de cores, sabores e odores para se imaginar. Interessantes são as descrições dos costumes, das festas e da viagem de navio no ano de 1928. Viva, Rose e Tor são personagens cativantes, cada uma em sua busca pessoal, com seus anseios, amores, dúvidas, frustrações, medos e conquistas. Estar naquele navio a caminho da Ìndia mudará a vida de todas e esse é o mote principal do romance, cercado por pequenas doses de suspense e mistério, contando-nos por meio de conta-gotas o passado e o presente dessas três mulheres. Cada uma com uma personalidade bem definida, mas sem um futuro claro. Rose vai para casar, Viva para reencontrar seu passado e Tor quer liberdade. Todas em busca de uma nova vida, com a inquietude natural de quem deixou para trás o que era certo para tentar se encontrar. Simpatizei com o livro logo pela capa e especialmente por Viva. Espero avançar mais nos próximos dias.
“Juntas as duas olharam para um delicado colar de luzes que surgia adiante no mar escuro e encrespado. Uma cidade estrangeira onde pessoas estrangeiras estavam escovando os dentes, lavando a louça do jantar e pensando em ir para cama.”
“‘Eu também mal conheço a mulher com quem estou me casando’. Era assim que ele se sentia voltando para casa aos prantos, sozinho no riquixá, e também durante toda a noite que se seguiu, que passou em claro, suando frio em sua cama. Ele esperava que no dia seguinte não se sentisse daquele jeito.”
“No banheiro, ela encheu a bacia e espirrou água no rosto com raiva. Era estranho – pensou ela, prendendo o cabelo para trás e passando duas pitadas de creme de limpeza no rosto – não ter falado a Tor sobre como estava se sentindo nervosa. Parecia um gesto de deslealdade, mas ela não sabia dizer se estava sendo desleal com Jack ou com sua melhor amiga, tal era o estado de confusão em que se encontravam seus pensamentos.”
“A festa das Mil e Uma Noites já estava animadíssima quando Tor subiu ao convés naquela noite. O céu flamejava com cores de coral e de um vinho bem claro, e os rostos dos convidados estavam banhados pela luz. A tripulação havia passado o dia correndo para lá e para cá, forrando as mesas com toalhas cor-de-rosa e fazendo pilhas de figos, mangas e asiminas, além de frutas cristalizadas e docinhos turcos de gelatina. Havia luzes coloridas penduradas ao longo da murada do convés e o que costumava ser a parte do convés para a prática de esportes tinha sido magicamente transformado na tenda de um sultão. Havia um engolidor de fogo dentro da tenda e uma aglomeração de pessoas que falavam alto e usavam máscaras, sandálias turcas, sáris e vestidos esvoaçantes. O coronel Kettering, numa túnica longa, balançava ao som de uma orquestra de músicos egípcios. Tor respirou fundo. ‘Ombros para trás. Cabeça erguida. Sorria. Caminhe.’ Seu destino era o outro lado do convés carmim, onde ela localizou seu grupo bebendo e rindo.”
#Mrs. Dalloway e Simone de Beauvoir olham de soslaio na fila enquanto banham-se com o sol das manhãs que chegam cedo demais.
#Beijos extremamente especiais para Charô e Marilyn. Todo meu carinho a vocês.




dama de cinzas // jun 26, 2009 at 10:42 AM
Lamento por vc! Sei que é triste perder quem gostamos, é um vazio sem fim, que nada ou ninguém preenche…
Beijocas
Lunna // jun 26, 2009 at 2:53 PM
Oi Srta. Bia, tudo bem com vc? Acho que a pergunta ficou vagando em mim… Bem, há pouco tempo atrás eu precisei fazer uma pausa porque encontrei em mim algo fora de lugar. Então “abandonei” várias coisas e resolvi que era preciso recilcar porque algumas coisas nos alcançam de tal forma que é preciso sentir até a ultima gota e foi o que eu fiz. Então enquanto observava a paisagem, percebi que havia muita coisa precisando de ponto final e precisou alguém morrer para eu olhar pra tudo aquilo. É engraçado de certa forma como a gente precisa de um estalo em algum momento.
Não estou dizendo que esse seja o caso, mas é que ao ler seu post acabei olhando pra mim mesma. Foi impossível não fazê-lo…
Abraços meus
marilyn // jun 27, 2009 at 4:21 PM
Bia, minha querida, que notícia triste.
Receba meu carinho, meu abraço apertado.
Sempre que algo não caminha como o esperado, eu faço minhas pausas, é involuntário.
Há alguns meses, minha vida tem mudado bastante. Problemas a resolver… mas tenho seguido, aprendi a valorizar cada momento, aprender com as perdas também, acho que isso acaba me fortalecendo um pouco. E eu desejo que você encontre sua paz. Força!
Beijo e obrigada pelas palavras!
denise rangel // jun 28, 2009 at 10:08 PM
Bia, meu abraço solidário, querida! Peço a Deus que conforte teu coração e da tua família e fortaleça a fé e a esperança de que um dia a reencontrarão. Tenho esta esperança também.
beijo, menina
Alline // jul 6, 2009 at 1:48 AM
Fica com Deus, viu?
Se precisar, tô aqui.
Beeeeijo