Vale a pena acompanhar as discussões e repercussões que as entrevistas da escritora, ex-atriz, agora mãe Maria Mariana. Em entrevistas na Folha Ilustrada e na revista Época, Maria Mariana faz uma série de declarações absurdas sobre a mitificação da maternidade, o atual papel da mulher jovem e indefesa no mercado de trabalho, o prazer de cuidar das roupas íntimas do marido e até afirma que depressão pós-parto é culpa da mãe que não se dedica com afinco para ter um parto normal. Em todas as declarações, Maria Mariana parece ter tomado sua vivência como única forma de verdade, esquecendo de todas as mulheres que não se adequam aos estereótipos da maternidade como a mais intensa e sagrada experiência que uma mulher pode ter. A mais intensa experiência que uma mulher ou qualquer outra pessoa pode ter é a da liberdade, acima de tudo.
A Marjorie Rodrigues começou comentando a entrevista da Folha. E continua com as novas declarações sobre a emancipação feminina na Época, com uma análise dos melhores comentários publicados no site da revista. Traz também, como um alívio, a dica da entrevista da Fernanda Montenegro na Bravo! Mas o que achei mais bacana é a maneira como a Marjorie explicita como a argumentaçao que: “homens e mulheres são diferentes” é a que mais a irrita. Quando se discute gênero alguém sempre acaba citando essa frase, e é óbvio que quem está defendendo a igualdade não está falando de questões biológicas, de corpos físicos diferentes, de quantidade de neurônios ou maneiras de agir diante de um problema, mas sim do poder que homens e mulheres possuem nos meios sociais. Qual o poder das mulheres no Congresso, por exemplo? É mais fácil aprovar leis que privilegiem a liberdade dos homens ou das mulheres? E o arremate final do post é: “Acho que a melhor maneira de desmascar os autores desta frase é perguntar qual dessas diferenças (ou supostas diferenças) justifica uma discriminação. Porque aí quem se estrepa é ele, porque fica claro justamente o que ele queria disfarçar: o fato dele defender que as pessoas podem ou devem ser discriminadas por conta de suas diferenças.”
Denise fez um belo post sobre Maria Mariana e seu castelo de areia. O texto é longo, mas vale muito a leitura, a Denise promove novas discussões sobre a maternidade e a importância dela para a mulher: “Parar tudo para ser somente mãe, como opção, é colocar nas mãos dos filhos o seu rumo, a sua felicidade e isso é injusto e um peso que eles não pediram. Mesmo sem ter um trabalho formal, eu diria às mães que nunca desistam de buscar essa tal “realização”, paralelamente, seguindo outros caminhos além da maternidade”. Ter filhos pode ser a realização de muitos sonhos e conquistas, mas é importante que a mulher não se reduza a um papel que depende de outra pessoa.
A Lola também dissecou as piores partes da entrevista e alerta sobre as pessoas que querem o retorno a uma outra época, em que tudo era mais simples, afinal a mulher sabia qual era o seu lugar e não ficava se metendo em assuntos masculinos.
A Scarlett explicita o que deveria ser escrito numa faixa e colocada na porta da casa da Maria Mariana: “cada mulher sabe o que é melhor para si e para seus filhos”.
Liliane Ferrari também pegou no taco e pergunta: “Como ela ousa relacionar parto com uma mãe ser melhor ou pior do que a outra?”.
A Vanessa falou sobre a publicidade que se ganha com declarações polêmicas: “Porque, convenhamos, de que outra forma alguém realmente teria interesse em saber a opinião da Maria Mariana sobre a maternidade e ainda pagar por isso?!”.
A Maysa falou de sua experiência cheia de delicadeza: “Amamentar e parir faz parte dessa busca, sem dúvida, mas pra algumas pessoas a caminhada é mais importante que o objetivo em si; porém também acho que amamentar e parir pode fazer surgir uma mulher melhor, mas isso não tem nada a ver com a mãe que ela será.”
E por fim, a Deh levantou a bola no grupo do Luluzinha Camp e Lu Monte transformou num post bacana. E interessante perceber que no grupo há muitas meninas que declararam abertamente que não pretendem ter filhos. E por isso somos um bando de mulheres medrosas, fujonas e infelizes, Dona Maria Mariana?
[update] A Cynthia listou mais blogs que falaram sobre o assunto (entre eles os ótimos posts da Srta. T, da Bibi e da VBN) e pergunta: “quantos homens escreveram sobre o assunto?” [/update]
Confissões de Adolescente foi livro, peça de teatro e seriado de tv. Tinha 13 anos quando a série estreou. Fui fã incondicional desde o início, desde a abertura com Gilberto Gil cantando Sina. Tanto o livro como o seriado falavam de muitos temas que não constumavam ser abordados na visão de adolescentes, muito menos de meninas. O círculo principal era constituído por uma família com um pai viúvo e 4 filhas. Diana e Bárbara eram filhas do primeiro casamento, a mãe delas foi formar outra família e cada reencontro era sempre pontuado por um misto de sentimentos de abandono, amor, perdão e revolta. Paulo, o pai, se casou pela segunda vez. A nova esposa trouxe junto Natália e tiveram Carol. Lembro até hoje de vários episódios como o do primeiro beijo da Natália, o aborto da Diana, a perda da virgindade da Bárbara, os sonhos da Carol de ir para a Disney. Era um seriado sobre sexo, drogas, rock`n roll, mpb, família, dieta, amor, paixão, amadurecimento e muito mais. Como bem disse a Sam, elas foram o Sex and the City da minha adolescência. Ano passado a Ka encenou a peça e chorei muito ao relembrar alguns momentos.
É isso que mais me dói ao ver as declarações atuais de Maria Mariana. Uma mulher que deu voz a tantas adolescentes, que mostrou de forma tão verdadeira e delicada como é a vida de baladas, sonhos, romances, dúvidas, alegrias e frustrações de uma adolescente classe média como eu, agora repete absurdos como: “A partir do movimento feminista, sofremos uma pressão para ser ativa no mercado de trabalho, ter valores masculinos. E a realidade da maternidade é outra, é querer vivenciar essa experiência.” Não existem valores masculinos ou femininos, existem valores sociais e culturais que devem ser estimulados por serem benéficos para a consolidação de uma sociedade igualitária. Ninguém questiona o homem que é pai e trabalha, por que é a mulher quem sofre esse dilema? Escrever um livro enquanto cria 4 crianças não é trabalhar e ser mãe ao mesmo tempo? E é importante relembrar que quem é mulher e pobre não tem opção, tem que trabalhar e cuidar dos filhos, muitas vezes sozinha. Afinal, no mundo perfeito de Maria Mariana todas as mulheres tem um ótimo marido no leme, que sustenta a casa e espalha cuecas pelo chão.



Flavia // mai 13, 2009 at 2:20 AM
Uau! É isso aí! Essa menina pirou na batatinha.
Só queria falar mais uma coisa, para não ser mal compreendida: provavelmente eu sou a mais conservadora das meninas aqui, sou inclusive uma das que fala sempre que “homens e mulheres são diferentes” – só que jamais com o contexto de que não temos os mesmos direitos ou os mesmos deveres, ou que não merecemos tratamento igualitário, pois nisso concordo com vc. As diferenças para mim (estou falando em maiorias, e portanto, generalizando) estão na forma de ver o mundo e enfrentar situações; e essas habilidades podem tornar homens e mulheres melhores em algumas coisas e piores em outras.
E tô com vc: ela poderia perfeitamente dizer “resolvi cuidar de filho e da casa porque tô a fim, porque gosto” e seria um direito dela. Mas daí a dizer as barbaridades que ela disse, é outra história.
Acho engraçado como ainda tem gente que pretende defender ou rir de quem a critica, como aconteceu no Twitter. Devem estar precisando de gente pra catar as cuecas. Pffff…
Beijos!
Zé // mai 13, 2009 at 2:23 AM
A vida materna pra ela se resume a dar de mamar até os peitos caírem. Vaidade? Bobagem, mesmo porque se você se preocupar muito com isso vai acabar com depressão.
Eu também adorava Confissões de Adolescente, mas não mais que Anos Incríveis… rs!
dama de cinzas // mai 13, 2009 at 10:57 AM
“Maria Mariana parece ter tomado sua vivência como única forma de verdade, esquecendo de todas as mulheres que não se adequam aos estereótipos da maternidade como a mais intensa e sagrada experiência que uma mulher pode ter”
Muito bom o post!
Beijocas
coredump // mai 13, 2009 at 11:58 AM
Eu acho que essa Maria Mariana deve ter entrado numa de religião e tal. Noventa porcento das vezes que alguém faz afirmações como as que ela fez, tá relacionado com religião.
Milady Carol // mai 13, 2009 at 2:03 PM
Dedicar a vida para cuidar dos filhos ? Muito bom para ela. Isso foi ESCOLHA dela. E o que o feminismo trouxe foi a possibilidade dela escolher isso, e de outras mulheres poderem optar por outra vida.
E Lola colocou muito bem : isso de escolher parar de trabalhar para cuidar dos filhos é uma opção “luxuosa”… Se um dia eu tivesse filhos, não poderia parar de trabalhar, com um salário só a coisa não andaria, principalmente com filhos para criar ! E esse é o caso de praticamente todas as mães da minha geração.
E tem mais : pressão existe para todas nós. A pressão para casar/ter filhos também é ENORME quando se é uma mulher que trabalha, é autosuficiente e não tem a intenção de casar/ter filhos. Então cada qual com seu cada qual, dona Maria Mariana.
Confissões de adolescente | A vida como a vida quer // mai 13, 2009 at 2:08 PM
[...] minhas confissões de adolescente de quase um ano atrás – do qual fui relembrada pelo pingback de @strabia. [...]
Marjorie // mai 13, 2009 at 2:08 PM
Eu não lembro com tanta clareza dos episódios, mas também assisti Confissões de Adolescente (quando ainda nem era bem adolescente) e adorava. A mudança é mesmo tão, tão drástica.
Lembro marromeno de um episódio em que a Diana estava infeliz com o curso que fazia na faculdade e acaba desistindo.
E a moral do episódio era justamente essa: que, às vezes a gente busca a felicidade aqui, não dá certo, pára, volta, tenta de novo… Não há um caminho único. O que é uma coisa tão simples de se perceber, né? Chega a ser meio burro dizer que só há uma única forma de felicidade e o resto é ilusão. Porque é muito prescritivo.
então, ver que foi a mesma MM que escreveu aquele episódio e este livro sobre maternidade. Putz, quem te viu, quem te vê.
Confissões de mãe | A vida como a vida quer // mai 13, 2009 at 2:13 PM
[...] Na primeira semana de maio a escritora Maria Mariana (que tem a minha idade e quatro filhos) concedeu uma entrevista à revista Época contando suas Confissões de Mãe, título e tema de seu novo livro publicado pela Agir. Soube de suas declarações polêmicas post pela @lilianeferrari que publicou um verdadeiro manifesto no Mãe Com Filhos. Devo voltar ao assunto breve, pois vou ler e pretendo resenhar aqui o livro, mas, por enquanto, deixo aqui os links como update destas minhas confissões de adolescente de quase um ano atrás – do qual fui relembrada pelo pingback de @strabia. [...]
Lunna // mai 13, 2009 at 7:51 PM
Não sei se quero falar da Maria Mariana, sinceramente eu achava muito fora da realidade seu confissões de adolescente. Assisti na cultura. Tudo bem, tinha algumas coisas interessantes, mas na maior parte do tempo me irritava. Não cheguei a assistir todos os episódios. Depois, eu soube que ela fez parte dos autores de Malhação.
Legal a opção dela, mas vamos lembrar que foi a opção dela, não é? Mas não é a minha e nem a de muitas mulheres. Adorei quando ela disse que a idade perfeita para ser mãe é entre 20 e 30 anos. hahahahahaha.
Enfim, as mulheres precisam de opiniões mais sensatas que essas. Bjs
Ana // mai 15, 2009 at 2:47 AM
Muito grave estas declarações, como pessoa pública, deveria usar o raciocínio, ter referenciais teóricos antes de dizer tantas bobagens, negando anos de luta dos movimentos feministas e de mulheres que fizeram história, sacrificaram-se em favor de novas gerações.
Confissões Absurdas : LuluzinhaCamp // mai 25, 2009 at 5:35 AM
[...] Ainda sobre mães e a liberdade feminina – Groselha News [...]