#3 O Amor Sadomasoquista.

O amor e o ódio convivem lado a lado num relacionamento. A pessoa amada nos faz sentir intensa felicidade, mas também é aquela que tira a liberdade e, algumas vezes, a paz, o sono, a vida. Amar significa um estado de espírito único, e também sofrer como um cachorro de rua. Raros aqueles que têm a sorte de um amor tranquilo. Um amor maduro sem jogos, perseguições e desconfianças. Nossas inseguranças muitas vezes não permitem a construção de amores simples. E nosso masoquismo muitas vezes nos prendem a relações tóxicas que viciam. O amor é a droga que todos buscam? É gostoso sofrer por amor? Ou deveríamos ser mais racionais e menos passionais nos relacionamentos?

# Episode 12: La douleur exquise!

Big está indo para Paris a trabalho e Carrie o ajuda a arrumar a mala enquanto conversam.

Carrie: – Antes que eu esqueça, Charlotte quer alugar uma casa em Hamptons nesse verão. O que acha de participarmos?

Big: – Acho que não poderei.

Carrie: – Por que? Não gosta de salada de siri por $40?

Big: – Na verdade, talvez não passe o verão aqui. Talvez tenha que me mudar para Paris a trabalho, por pouco tempo.

Carrie: – Por quanto tempo?

Big: – Não sei… sete meses, um ano talvez. Nada está definido.

Carrie: – Espere… espera aí… há quanto tempo você sabe disso?

Big: – Há algum tempo, mas saberei melhor depois desta viagem.

Carrie: – E quando você estava pensando em me contar?

Big: – Quando soubesse melhor, nada está definido. Não há razão para ficar preocupada.

Esse é o segundo namoro de Carrie e Big. Eles já namoraram, terminaram e resolveram voltar. É engraçado notar que relações iô-iô seguem um ritmo próprio, o casal vai-e-volta, a mulher sempre repete que ele mudou, que as coisas estão diferentes e os amigos se olham como se já soubessem o final do filme. É claro que há exceções, mas sempre vamos querer atropelar os namorados canalhas de nossas amigas, mesmo que ela diga que ele não é o mesmo de antes. Big porta-se como tal, simplesmente não dando a mínima para Carrie, tudo se resume a trabalho, ponto. Ela já sabia disso na primeira vez que namoraram, mas as ilusões do amor, as carências, desejos, medos e esperanças acabam nos arrastando de volta para as mesmas marés. Seguir o coração ou a razão em alguns relacionamentos é de uma complexidade impressionante, especialmente para Carrie.

# Puta da vida, Carrie encontra as meninas para contar as más-novas.

Carrie: – Eu queria matá-lo! E ele me olhava querendo dizer: “qual o problema? Não há razão para estar chateada, é meu problema”.

Charlotte: – Calma, dá para contornar. São sete meses, você pode visitá-lo em Paris, ele pode vir para cá…

Carrie: – Não é essa a questão. O problema é que ele nem pensou em mim no seu processo de decisão.

Samantha: – Homens agem sempre assim. As mulheres só pensem em “nós”. A definição de “nós” para eles é: “eu e meu pênis”.

Carrie: – Apenas queria que ele dissesse o que está acontecendo. É pedir demais? Só dizer: “Carrie, estou pensando em mudar para Paris, para o resto da minha vida.” Estou certa? Uma hora ele está todo romântico comigo, depois me põe de lado. Não posso acreditar que isso está acontecendo novamente! Por que não paro de fazer isso comigo? Devo ser uma masoquista ou coisa parecida.

Carrie percebe que vive uma relação doentia e unilateral. Big pode até gostar dela, mas não divide sua vida, nem seus sentimentos. Seriam os homens mais frios que as mulheres quando se trata de amor? Geralmente leva tempo para alguém perceber o quanto já se entregou a relação, o quanto já fez de tudo para dar certo. As pessoas tendem a acreditar no poder transformador do amor, mas não lembram que as pessoas amam por diversas razões, por carência, segurança, desejo, solidão, status, ou até por não ter nada melhor para fazer. O amor muda nossas vidas quando permitimos que entre por nossos poros. Da mesma maneira, a dor só é grande demais quando permitimos que perdure. Chicotes são divertidos, até que se perceba a dor no dia seguinte, se doer é porque deixaram de ser saudáveis.

# Durante a viagem, Carrie, bêbada, surta com Big pelo telefone. Sentindo-se culpada no dia da volta ela leva french fries, um pedido de desculpas e todas as suas cartas.

Big: O que significa isso?

Carrie: Desculpas por ter sido ridícula. Tenho pensado nisso, acho que podemos fazer dar certo. Podemos fazer sexo por telefone. E se as coisas não funcionarem me mudo para Paris e escrevo sobre Le Sexo e le Cidade.

Big: Seria ótimo. Mas você se mudaria para Paris por você, certo? Não se mude por mim.

Carrie: Por que então eu mudaria para Paris se não fosse por você?

Big: Não quero que você mude sua vida e espere algo em troca.

Carrie: Eu sou tão idiota! Faço tudo por você e você não dá a mínima. Estou cansada disso tudo!

Big: Ei, fique calma! Olha, eu preciso ter um relacionamento no qual se eu tiver que ir para Paris, eu possa ir. Não é uma questão de “nós”, é uma questão de trabalho.

Carrie: Não é uma questão de trabalho. É uma questão de nos aproximarmos e de você ter que colocar um oceano entre nós.

Big: Não quero mais falar sobre isso.

Carrie: Por que é tão difícil para você me considerar como algo importante de verdade na sua vida?

Big: Velhos hábitos não mudam.

Carrie: Você disse que me amava.

Big: Eu a amo.

Carrie: Então por que dói tanto?

É bonito pensar na metáfora carregada pela palavra “nós”. Significa duas pessoas que se fundem em um pronome. E significa também uma amarração, por meio de nós prendemo-nos uns aos outros até que as cordas se desprendam, até que alguém ou o tempo os desfaça. Carrie sente muita raiva, pois sabe que está sofrendo por culpa sua. Ela se amarrou a um homem que não pretende ter um compromisso. Acreditou em pequenitudes, migalhas, em gestos que na verdade não significavam nada especial, apenas a maneira como ele leva a vida. O sofrimento traz para o relacionamento um elemento especial: a emoção. Aquele frio na espinha que se tem ao andar de montanha russa. Aquele medo de perder que nos faz lutar pelo ser amado, agarrar suas roupas, chorar, gritar, como naquela música da Elis. Esse amor nos faz sentir vivos, nos dilacera, por isso vicia tão fácil, é intenso. Por isso não acreditamos na rotina de um amor simples, sem loucuras, sem arranhões. Mas crescemos, criamos novas percepções, conhecemos novos restaurantes e não há vacina que garanta que você não vai voltar a se apaixonar, por mais que atualmente tudo leve a crer que não.

No próximo post a última parte da segunda temporada com #Nosso amor de ontem. Este post faz parte de uma série sobre o seriado Sex and the City. O primeiro é #O Sexo e a cidade e o segundo #Solteira e Fabulosa?.

#Manifesto: Homens unidos pelo fim da violência contra a mulher.

#Um texto da querida Patrícia Daltro virou argumento para uma peça. Se estiver pelo Rio de Janeiro de 13/11/08 a 12/02/09  não deixe de assistir A Vigilante, Uma Comédia de Peso, quintas-feiras às 21:30hs no Teatro Cândido Mendes, Ipanema.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

21 comentários sobre “#3 O Amor Sadomasoquista.”

  1. Bom giorno srta. Bia, sinceramente nunca sofri por amor. Acho que sou muito racional para isso. Mas os meus personagens sim e de certa forma, até sofri com eles, mas é mais aquela coisa de observar. Lembro-me da personagem Perla que ama um homem que sua irmã literalmente rouba dela e são anos amando a lembrança de um beijo. Mas são outros tempos. A história acontece em 1908. Quando ela pensa que não o ama mais, acontece o reencontro e ela percebe que não deixou de amá-lo em momento algum…
    Mas sofrer por amor eu acho estranho. Também acho falta de auto estima, até porque pelo menos viveu-se algo e concordo com a questão do personagem Big, não há porque resumir a sua vida ao outro, você precisa de espaço ou se perde por completo e por mais que as identidades se unam, sempre é preciso saber quem é você para sobreviver caso a palavra fim seja imposta na trama.
    Viu? Eu disse que era muito racional… Mas também sou romantica e acho que o amor é uma coisa deliciosa, nos transforma em alguém melhor, mas é eterno enquanto dura. Pode acabar sim ou se transformar no decorrer do tempo, mas é preciso vivê-lo enquanto está em você… Abraços meus.

  2. Acho que a sociedade confunde amor com paixão, talvez se o nome certo fosse dado, não existiriam tantos sinais trocados.

    Paixão é um sentimento totalmente químico, é comprovado que seu cérebro fica inundado de neurotransmissores o que te dá uma sensação enorme de prazer ao estar do lado daquela pessoa, vc age de forma alterada, se sente extremamente feliz em uns momentos e péssima no outro. Paixão tem prazo de validade, 3 anos mais ou menos.

    Tudo que vem depois desses + ou – 3 anos e que é bom, o sentimento que sustenta uma relação. Que é construído com esforço, aparando as arestas, fazendo concessões e que dá certo pra ambos, pode ser classificado como amor. Ele é calmo, não tem a intensidade da paixão, mas tem a segurança de um sentimento tranquilo e aconchegante! Eu prefiro o amor atualmente!

    Beijocas

  3. botei o link para “creditar” o texto
    obrigado querida!!

    depois eu volto aqui pra ler com calma meu blog favorito (L)

    olha so, poderiamos marcar um dia pra gente tomar um cafe e bater um papo “in persona”, que tal?

  4. A gente se prende a cada coisa, cada situação, a cada pessoa…o que a gente não percebe no meio dessa dependência toda é que podemos nos libertar quando quisermos, né não?
    Somos nossos próprios algozes.
    Bejim, frô 😛 ~~

  5. Bueno, eu sei que na teoria a gente sabe de tudo isso; inclusive do quanto o Big tem razão quando diz, ‘faça isso por você’. É legal incluir o outro no plano; mas há limites. Viver a vida do outro e esperar coisas em troca é o pior que se pode esperar de um relacionamento; não há quem aguente o peso de ser responsável pela felicidade do outro. E triste é que hoje em dia, nem co-responsáveis as pessoas querem ser.
    É 8 ou 80 e tá todo o mundo perdido de dar dó. Yo, inclusive.

    Bezzos,

  6. Acho que muitas mulheres ja devem ter vivido esse dialogo da Carrie com Mr. Big. Acho que ha varios motivos para que uma mulher insista em um relacionamento unilateral, inclusive porque muitas vezes, na minha opinião, demora pra ficha cair que vc esta sozinha naquilo. E quando a ficha cai, é exatamente como o que vc diz : doi pra caramba inclusive porque a gente ver que a culpa é nossa, que a gente quer se apegar a qualquer preço…
    E eu sou das raras que nunca suportaram o Mr. Big 😀

  7. Você não vai acreditar, mas o livro do pênis está estampado na vitrine de uma livraria lá na Haddock Lobo (quase esquina com a Oscar Freire, bem do lado da Mont Blanc). Toda vez que eu passo, eu páro e fico admirando o tamanho da preciosidade na capa do livro ahahahaha!

  8. Senhorita Bia!

    Muito praer! E foi com prazer que lí seu comentário (e sua piada) lá no Palimpnóia.
    Já sobre seu texto, sou suspeito pra comentar, mas estou com o Big, pois as cobranças geradas pela expectativa, em geral, acabam com o amor – ou a paixão. Nós somos viciados em projetar ‘no outro’ aquilo que esperamos em retribuição a tudo aquilo que decidimos (sozinhos) dar.
    Gostei muito desse texto. Preciso relê-lo e aos demais também.

    Beijo.

  9. Bom, sabe o que eu acho? Que a Carrie tb era uma puta duma neurótica. O Mr. Big nunca foi flor que se cheirasse, mas acho que ela nesse episódio exagerou na dose. Homens são um pouco mais (tá bom vai, beeeem mais) individualistas, e ele é daqueles super individualistas. Mas eu nunca tive dúvidas de que ele gostasse e gostasse muuuito dela – só que do jeito dele, e nos limites e condições que ele tinha.
    Ah sim, tem mais uma coisa: como a Dama de Cinzas, eu sou daquelas que faz a distinção clássica entre amor e paixão. Amor pra mim passa sempre pela compreensão, pelo entendimento (dentro de alguns parâmetros, evidentemente); paixão não, é aquela montanha russa deliciosa e infernal, que justamente por ter tantos altos e baixos não se consegue viver por muito tempo.
    Mas eu acho que a Carrie com o passar do tempo amadureceu tb, tendo inclusive que conviver com o problema na situação oposta – lembra daquele escritor, que tava numa pior e tinha inveja dela? Ou aquele doce do namorado que eu esqueci o nome, que fazia tudo por ela, colocava ela na frente de tudo, e deu no que deu? O fato é que a premissa para amar alguém é que nos amemos em primeiro lugar. O negócio é que falar é fácil né?
    beijossss

  10. Mas desde que o mundo é mundo que tudo isto é imundo? Não é bem assim. O que se escreve, o que se filma tem tanto de roteiro pré fabricado que parece que se vive o ideal da cabeça dos autores. Há um mundo paralelo bem melhor, nem tanto aos lobos. Beijos srta Bia.
    Adão sem a Eva te aguarda no Chega.

  11. eu acho q quando agente conhece a pessoa a primeira impressão é otima, mais nem sempre é a verdadeira…
    se fossemos mais verdadeiros logo no inicio da relação seria bem mais facil abandonar…
    e se da brimeira vez q hovesse uma brigo sei la q seja ja dessemos um basta nos poupariamos de um sofrimento maior

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