Há dois anos, aproximadamente, realizo trabalhos voluntários na área de educação. Durante desse tempo foi possível conhecer o trabalho de várias pessoas e instituições. Para participar do Blogueiro Repórter, decidi conversar com outros voluntários e, com alunos de um curso de alfabetização, sobre relações existentes entre trabalho, educação, sociedade e vida. É possível encontrar todos os posts participantes do Blogueiro Repórter pelo diHITT.
Aparecida Martins é coordenadora pedagógica voluntária na Casa de Ismael, uma instituição sem fins lucrativos, com a missão de abrigar e assistir crianças e adolescentes órfãos, abandonados e/ou com lares temporariamente desajustados, de 2 a 18 anos de idade, bem como amparar e orientar as respectivas famílias que estejam em estado de pobreza e desestruturação agudas. O projeto educacional consiste em manter aulas de reforço e apoio educacional no período contrário ao da escola que freqüentam. O projeto também é aberto a pessoas da comunidade. Como muitas pessoas, Aparecida decidiu trabalhar voluntariamente depois de se aposentar. Conversamos sobre as atividades realizadas na Casa de Ismael e as relações entre trabalho voluntário e sociedade.
“Dentro de uma sala de aula existem os alunos e os professores, mas também estão presentes, de forma indireta, as pessoas que influenciam as crianças, os pais, a família. A sociedade está presente na sala de aula, por meio da cultura e da vida, porém a maioria das pessoas não se sente responsável pela educação pública brasileira e nem mesmo pelas crianças. O governo é responsável, claro. Mas há tanto que pode ser feito hoje, é tão importante para o ser humano conhecer as pessoas do seu bairro, a escola ainda tem esse poder de agregação, mas ele é extremamente subutilizado.”
Atualmente, o MEC junto com o FNDE possui um programa especial chamado Escola Aberta. As escolas cadastradas são abertas nos fins de semana e realizam-se oficinas, aulas de dança, esportes e outras atividades, visando atrair a comunidade e agrega-la ao espaço escolar como uma opção de lazer e sociabilidade. Aparecida concorda comigo que isso é uma ótima iniciativa, mas ainda é pouco perto da influência que a sociedade exerce sobre o indivíduo.
“As relações sociais auxiliam no processo educativo dos alunos. E, dependendo do contexto social da escola, essas relações são facilitadas ou não. Questões como a violência, a incivilidade, fatores econômicos, comunidades religiosas e até política são alguns dos elementos que afetam o desenvolvimento de um processo pedagógico. Por que o aluno estaria excluído dessas influências? O aluno deve ser visto como um todo. Quando ele chega à escola traz consigo não só o material escolar como também informações, impressões e experiências que recebeu durante sua vida. A sociedade também não pode se excluir do processo de formação dos cidadãos”.
Sueli Mariani e Dina Ribeiro são voluntárias cadastradas no Centro de Voluntariado do Distrito Federal. Há cerca de um ano, após o término de um curso técnico de alfabetização, viram-se diante do desafio de montar uma turma e começar a lecionar. Sueli sempre gostou de ser professora e afirma que o trabalho voluntário precisa ser encarado realmente como um trabalho.
“Fazer trabalho voluntário significa um comprometimento com o coração. É um dever estar ali, pois outras pessoas dependem de você e não há ninguém para te substituir”.
Na turma há 15 alunos e a aulas ocorrem duas vezes por semana à noite. Poucos alunos moram perto, a maioria vem do trabalho. Converso com eles sobre seus sonhos, dúvidas e anseios. Margarida, 47 anos, conta que sempre teve muita vergonha de não saber ler e escrever, mas que ao chegar ali e ver outras pessoas com a mesma dificuldade decidiu tentar. Todos têm longas histórias de vida, razões pelas quais não freqüentaram a escola no período correto, mas também têm vários sonhos como comprar a casa própria, escrever cartas para familiares, copiar poesias, fazer uma faculdade, terminar um curso técnico, ajudar os filhos nas tarefas escolares, viajar sem medo. Pergunto a Bernardo, 61 anos, o que significa para ele participar desse grupo.
“Realmente dependo dessas professoras, mas acredito que aconteçam trocas de vida entre todos nós. A cada aula sabemos um pouco mais sobre português e matemática, mas também sei um pouco da professora, dos colegas e eles sabem mais de mim. Essa troca, essa amizade é muito importante para se aprender sobre a vida e sobre como aprender a ler e escrever muda a vida de todos nós, tanto de quem sabe como de quem não sabe.”
Trabalhei durante um ano na Casa de Ismael e atualmente auxilio Sueli e Dina nas atividades da turma de alfabetização, pois em julho, Sueli se mudará para São Paulo e ficarei em seu lugar. Há várias maneiras de trabalhar voluntariamente e há infinitas formas de ajudar todas as formas de vida do universo. Escolher uma ou várias depende de cada pessoa, mas trabalho voluntário é um compromisso não somente do indivíduo consigo mesmo, mas também com a sociedade.
“Quanto mais me capacito como profissional, quanto mais sistematizo minhas experiências, quanto mais me utilizo do patrimônio cultural, que é patrimônio de todos e ao qual todos devem servir, mais aumenta minha responsabilidade com os homens”. (Paulo Freire no livro Educação & Mudança).



Ricardo Tayra // mai 13, 2008 at 12:57 AM
Parabéns pela sua iniciativa e pelo post. Bom conhecer histórias como estas
Pedro // mai 13, 2008 at 1:49 AM
Parabéns pelo trabalho e pelo post.
Drix // mai 13, 2008 at 7:58 PM
bah. que bonito …
aqui na minha nova cidade deve ter algo do tipo. tu me incentivou a procurar!
beijos, moça.
Cristina Sampaio // mai 14, 2008 at 6:56 PM
Educação e coletividade, esse é um bom caminho de formação; é preciso investir nisso. O trabalho voluntário também é uma oportunidade pra quem quer aprender, além de uma possibilidade para os que obtêm o serviço, sem falar no exercício de solidariedade. Que você consiga bons resultados com as suas ações!
Ulisses Adirt // mai 14, 2008 at 7:07 PM
Lindo! E vc soube mto bem como fechar o texto…
Leo // mai 15, 2008 at 1:47 PM
Acho que você só vai responder “obrigada” por aqui. Mas realmente ficou um trabalho muito bom.
E esse tipo de trabalho é bem interessante. Como li em algum lugar que não lembro agora, quem faz esse tipo de trabalho faz a história, não sofre.
Beijos ;*
Leticia // mai 15, 2008 at 3:06 PM
passei a te admirar mais depois deste post…
e fiquei com um peso na consciência, pois ultimamente tenho pensado muito só em mim, e esbravejado que não tenho o que oferecer as pessoas…
time is money, mas a vida é o nosso coração, né?
bjus!
Joana // jul 29, 2008 at 8:00 PM
Gostaria de saber se uma adolescente de 14 anos pode trabalhar voluntariamente e onde fica a casa de ismael?
Obrigada pela a sua atenção e adorei o seu texto
=]
Ana Beatriz alves // set 6, 2009 at 1:18 PM
Sabee eu tenho 14 anos e quero muito trabalha, para ajuda minha famíla e ter um dinheiro no final do mes pra curti um pouco, se quise te contato paa me chama para algum trabalho liga para minha casa .. 3158-8813 to disposta aprende qualquer coisa