Se você ainda não foi assistir A Origem, novo filme do diretor Christopher Nolan, com Leonardo DiCaprio, Ken Watanabe, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Michael Caine, Marion Cotillard e grande elenco. Corra para o cinema. Mesmo que você não goste é um filme acima da média do que temos visto. Vale a pena pagar o ingresso, pois visualmente o filme é soberbo.

A Origem é um dos filmes mais bacanas que já assisti. Uma ficção científica baseada na idéia de que podemos compartilhar sonhos, arquitetar suas estruturas e dentro desses sonhos podemos roubar idéias ou inserí-las. O que torna o filme especial são justamente suas idéias, como a possibilidade de se criar sonhos dentro de sonhos, e o mais importante quando se trata de sonhos, o poder do subconsciente. Nolan traz a realidade para dentro do subconsciente, mas sabe que ali nada é previsível, o subconsciente é como um trem desgovernado pronto para entrar em nossos planos.
Christopher Nolan vem trabalhando com a idéia de realidade versus ilusão, verdade versus mentira durante toda sua carreira como diretor. Seu primeiro sucesso foi Amnésia (2000), em que Guy Pearce contava com a ajuda de Trinity para resolver o assassinato de sua esposa. Porém, o protagonista sofre do efeito Dory, perda de memória curta. Consegue lembrar de eventos passados, mas não do que acabou de acontecer. Essa idéia rende alguns ótimos momentos, como aquele em que Leonard, no meio de uma perseguição, não sabe se está perseguindo alguém ou se é perseguido. Para completar, a história do filme é apresentada de trás para frente. Uma das melhores novidades do cinema no início dos anos 2000. Continua sendo um bom filme.
Depois veio Insônia (2002), em que Al Pacino sofria terrivelmente com o sol da meia-noite no Alasca. Com Hilary Swank meio chatinha e um Robin Williams aterrorizante, Nolan nos levava a pensar sobre nossas verdades e mentiras internas, sobre nossa moral e como nos destruímos pouco a pouco, seja pela falta se sono ou seja por ser quem somos. Um bom filme, especialmente por colocar Williams num papel ao qual não estamos acostumados.
E então veio Batman Begins (2005). Um filme do Batman, um filme para resgatar o herói que foi destroçado por aqueles carnavais do Joel Schumacher. Um herói sombrio e amargurado que precisa lidar com memórias, realidade e a fantasia criada por uma roupa de homem-morcego. Batman, assim como Leonard e Dormer do filmes anteriores é o herói em busca de redenção e justiça. A seu modo, claro. Um bom filme para reabilitar Batman, um bom filme para nos reapresentar quem nos interessa. E aqui começa a ótima parceria do diretor com Michel Caine.
E por que não um filme sobre mágicos ilusionistas? O Grande Truque (2006), que ficou conhecido como Wolverine x Batman, é um dos melhores filmes de Nolan. Dois mágicos, na Londres urbana do fim do século XIX, disputam para ver quem é o melhor e para resolver os problemas que os transformaram em grandes inimigos. O mais divertido é que Nolan não é o tipo de diretor que esconde tudo, ele nos conta qual é o grande truque, mas o filme traz muito suspense ao longo da trama, que ainda conta com o bônus de ter David Bowie num papel especialíssimo. Aqui mais uma vez temos heróis e anti-heróis tão parecidos que perdem-se dentro de suas ambições. Suas fantásticas produções de ilusões e sonhos procuram surpreender o espectador que está alheio aos bastidores, onde segredos são roubados. Um dos meus preferidos, com certeza.
Agora sim, Batman – The Dark Knight (2008). O Coringa, o melhor vilão ever, o vilão que esfrega na cara do Batman o quanto são parecidos, o quanto dependem um do outro para continuar vivendo, o quanto a realidade de suas vidas se confunde com a ilusão de querer ser o que não se pode ser. E o caos. O caos que pode construir e destruir, o imprevisível que na verdade é tão familiar. Batman é tão maluco quanto o Coringa, compartilhando sonhos, ilusões, farsas. A mente de um precisa do outro para continuar maquinando, o subconsciente que nos leva a duvidar das verdades e da realidade. O Coringa é resultado do próprio Batman, luz e sombra. E quanto mais luz, sempre há mais sombra. Why so serious?
Desde as primeiras notícias sobre A Origem nunca consegui entender exatamente do que se tratava o filme, mas depois de assistí-lo não consegui parar de pensar nas ligações dos filmes de Nolan. Dentro de toda essa construção entre real e ilusório, chegamos ao subconsciente. Chegamos a curva que une realidade e sonho num mesmo espaço que é palpável, mas não é físico. Nolan vem me dizer que cinema também é sonho com a noção de tempo aumentada e que o sonho é adentrável por estranhos quando compartilhado. Vem me jogar no banco de trás de uma van onde estou cheia de perguntas, mas me entrego ao sonho de chegar cada vez mais fundo dentro da mente, visitar as ruínas de minha falsa existência. A Origem na verdade é uma grande homenagem a Jung, a suas teorias sobre sonhos, incosciente, subconsciente, prisões psíquicas, loucura, projeções, símbolos e arquétipos. São poucos personagens na trama e cada um deles possui uma função específica com características bem definidas: o arquiteto, o professor, o falsificador, o químico, o detetive, o turista, o extrator, a prisioneira. E com o ótimo elenco é impossível se perder.

Há tantas referências cinematográficas cruzadas que não conseguirei citar todas, mas aqui estão algumas das minhas favoritas:
- A personagem de Ellen Page chama-se Ariadne, que na mitologia grega é a filha do rei Minos que ajuda Teseu a sair do labirinto do Minotauro.
- Leonardo DiCaprio vive em fuga da mesma maneira que seu personagem em Prenda-me se for capaz. Em A Origem há uma cena em que ele encontra Michael Caine e fala que há muita burocracia na extradição entre França e Estados Unidos. Foi justamente na França que seu personagem foi preso por Tom Hanks e extraditado no filme de Spielberg.
- O primeiro grande papel de Marion Cotillard, que inclusive lhe valeu um Oscar, (onde uma de suas concorrentes era Ellen Page), foi o de Edith Piaf, na cinebiografia da cantora. Em A Origem, a música utilizada para despertar é “Je ne regrette rien” na voz de Piaf.
- O nome da personagem de Cotillard é Mal. Nunca sabemos se é um apelido ou não.
- Lukas Haas que começou fazendo sucesso como o garotinho do filme A Testemunha é o primeiro arquiteto do bando em A Origem.
- Nolan dirigiu um filme em 1998 chamado Following em que o único personagem que tem nome chama-se Cobb.
Fora todas as reflexões que o filme traz à tona: Qual o perigo de criar sonhos a partir de nossas lembranças? Como inserir uma idéia na mente de alguém? Por que uma idéia positiva supera uma idéia negativa? Por que buscamos sempre a reconciliação, a catarse? Quanto poder há em uma idéia? Como envolver uma pessoa em mentiras dentro de um sonho? Paradoxo? Até quando é possível prender algo no subconsciente? Até quando posso controlar meu subconsciente?
Agora é esperar a terceira parte da saga de Batman e enquanto isso se divertir com a trilha sonora da vuvuzela. Sempre lembrando que idéias são como vírus resistentes que podem dominar mentes.
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