Meia-Noite em Ponto em Xangai

A longa bata de brocado azul caiu-lhe aos pés. Avançou nua em direção ao espelho de moldura de laca vermelha. Girou sobre os calcanhares para se ver de perfil. Levantou o busto. Encolheu o estômago. Olhando ainda para o espelho, como se convidasse a própria imagem a acompanhá-la, mergulhou na banheira. Cerrou os olhos, a mãos flutuando à altura do ventre. Um leve rubor coloriu-lhe o rosto. Ficou assim imóvel durante algum tempo.

Trecho de “Meia-Noite em Ponto em Xangai”. Conto de Lygia Fagundes Telles no livro “Antes do Baile Verde”, página 83.

Camiseta Menstruada

A marca American Apparel lançou uma camiseta com a ilustração de uma vagina menstruada sendo masturbada.

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Camiseta “Period Power” da American Apparel.

Vanessa Rodrigues me mandou o link do post “Ecati!” que relata o nojinho da camiseta. Quando comecei a ler, pensei que a tinta vermelha era feita com sangue menstrual, para justificar tanto nojo. Mas não, é apenas uma ilustração e demorei um pouco para entender o desenho. Só espero que o nojo não seja pela masturbação também.

Achei inusitada e divertida. Tracie Egan do Jezebel pergunta: onde iríamos com uma camiseta ilustrada por uma vagina menstruada? E a minha resposta é: a qualquer lugar. Como as propagandas de absorvente (que preferem sangue azul a vermelho) sempre fizeram questão de frisar, mulheres menstruadas podem ir a qualquer lugar.

A camiseta, chamada “Period Power”, é uma colaboração da American Apparel com Petra Collins, artista canadense de 20 anos, que “cria retratos explorando a sexualidade feminina e a cultura das garotas adolescentes”. Ela conseguiu um emprego na American Apparel quando ainda era adolescente e agora contribui como fotógrafa para a marca.

Metade do lucro das vendas vai direto para The Ardorous, um coletivo feminino de arte online com curadoria de Collins. A plataforma apresenta uma série de trabalhos com viés feminista, a maioria brilhantes como “Lady Manes”, série de auto-retratos da artista Rhiannon Schneiderman usando perucas pubianas. “There Will Be Blood” mostra fotos de mulheres fazendo atividades cotidianas enquanto estão menstruadas. “My Mom’s Friends” traz fotos de senhoras de meia-idade vestidas com camisolas. E, “Lolita”, uma seleção de fotos com o mesmo sonho fetichista de mulheres jovens, do livro de Nabokov, mas subvertida pela presença desagradável à vista de pêlos corporais. Referência: American Apparel Is Selling a Menstruating Vagina Shirt.

O Corpo Utópico

Trechos do texto de Michel Foucault: O Corpo Utópico. Publicado pelo site Instituto Humanitas Unisinos em 22/11/2010.

Depois de tudo, creio que é contra ele e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias. A que se devem o prestígio da utopia, da beleza, da maravilha da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado; e é bem possível que a utopia primeira, aquela que é a mais inextirpável no coração dos homens, seja precisamente a utopia de um corpo incorpóreo. O país das fadas, dos duendes, dos gênios, dos magos, e bem, é o país onde os corpos se transportam à velocidade da luz, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde se é visível quando se quer e invisível quando se deseja. Se há um país mágico é realmente para que nele eu seja um príncipe encantado e todos os lindos peraltas se tornem peludos e feios como ursos.

[…]

Mas meu corpo, para dizer a verdade, não se deixa submeter com tanta facilidade. Depois de tudo, ele mesmo tem seus recursos próprios e fantásticos. Também ele possui lugares sem-lugar e lugares mais profundos, mais obstinados ainda que a alma, que a tumba, que o encanto dos magos. Tem suas bodegas e seus celeiros, seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça, por exemplo, é uma estranha caverna aberta ao mundo exterior através de duas janelas, de duas aberturas – estou seguro disso, posto que as vejo no espelho. E, além disso, posso fechar um e outro separadamente. E, no entanto, não há mais que uma só dessas aberturas, porque diante de mim não vejo mais que uma única paisagem, contínua, sem tabiques nem cortes. E nessa cabeça, como acontecem as coisas? E, se as coisas entram na minha cabeça – e disso estou muito seguro, de que as coisas entram na minha cabeça quando olho, porque o sol, quando é muito forte e me deslumbra, vai a desgarrar até o fundo do meu cérebro –, e, no entanto, essas coisas ficam fora dela, posto que as vejo diante de mim e, para alcançá-las, devo me adiantar.

Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Corpo absolutamente visível – porque sei muito bem o que é ser visto por alguém de alto a baixo, sei o que é ser espiado por trás, vigiado por cima do ombro, surpreendido quando menos espero, sei o que é estar nu. Entretanto, esse mesmo corpo é também tomado por uma certa invisibilidade da qual jamais posso separá-lo. A minha nuca, por exemplo, posso tocá-la, mas jamais vê-la; as costas, que posso ver apenas no espelho; e o que é esse ombro, cujos movimentos e posições conheço com precisão, mas que jamais poderei ver sem retorcer-me espantosamente. O corpo, fantasma que não aparece senão na miragem de um espelho e, mesmo assim, de maneira fragmentada. Necessito realmente dos gênios e das fadas, e da morte e da alma, para ser ao mesmo tempo indissociavelmente visível e invisível? E, além disso, esse corpo é ligeiro, transparente, imponderável; não é uma coisa: anda, mexe, vive, deseja, se deixa atravessar sem resistências por todas as minhas intenções. Sim. Mas até o dia em que fico doente, sinto dor de estômago e febre. Até o dia em que estala no fundo da minha boca a dor de dentes. Então, então deixo de ser ligeiro, imponderável, etc.: me torno coisa, arquitetura fantástica e arruinada.

Não, realmente, não se necessita de magia, não se necessita de uma alma nem de uma morte para que eu seja ao mesmo tempo opaco e transparente, visível e invisível, vida e coisa. Para que eu seja utopia, basta que seja um corpo. Todas essas utopias pelas quais esquivava o meu corpo, simplesmente tinham seu modelo e seu ponto primeiro de aplicação, tinham seu lugar de origem em meu corpo. Estava muito equivocado há pouco ao dizer que as utopias estavam voltadas contra o corpo e destinadas a apagá-lo: elas nasceram do próprio corpo e depois, talvez, se voltarão contra ele.

Sobre ofensas e escolhas

Semana passada, publiquei a tradução de um texto nas Blogueiras Feministas. E uma amiga, que fez a revisão, sugeriu que o seguinte aviso viesse antes do texto:

Ainda que o texto foque em um tipo de opressão estrutural e se dirija aos homens heterossexuais e cissexuais, nos parece que o mecanismo é válido para outros casos. Por exemplo, pessoas brancas não tem que se ofender quando seus privilégios são apontados — ainda que, pessoalmente, não sejam racistas. A mesma coisa para os privilégios heterossexual e cissexual. É uma contradição pretender-se uma pessoa consciente dos próprios privilégios e interpretar denúncias à macroestrutura como ofensa pessoal.

Mesmo explicando as pessoas que o texto é generalista e dizendo que a proposta é o reconhecimento de privilégios, muitas expressaram que se sentiram ofendidas nos comentários, especialmente homens. E, várias pessoas vieram afirmar que nem todos os homens se beneficiam do sexismo, quando na verdade o texto fala do global e não de casos específicos. Acredito que se 95% dos homens se beneficiam do sexismo, podemos dizer que todos os homens se beneficiam do sexismo. Sim, a generalização pode ser ruim, mas minha intenção é mesmo que a maioria dos homens sinta-se desconfortável, como é dito no texto.

Um outro texto, sobre maternidade e trabalho, também provocou muita comoção nos comentários, com várias pessoas se dizendo ofendidas. O ponto de partida é uma reportagem sobre mulheres americanas de classe alta que há 10 anos largaram os empregos para cuidar dos filhos e, hoje, mostram-se arrependidas. O texto faz o seguinte alerta: ao tomar decisões, seria importante não confiar tanto em maridos ricos ou na estabilidade da economia. É um texto que questiona escolhas. É claro que a autora faz troça dos estereótipos que cercam mulheres ricas (que são geralmente quem pode largar os empregos), como calças de yoga caras. Vários comentários chamaram o texto de raso e classista.

O texto com certeza não é um primor, nem o melhor texto sobre o assunto e trata de uma realidade americana, focando nas decisões dessas mulheres ricas. Então, há um recorte delimitador de classe. Não se está falando de casos específicos de crianças que demandam mais atenção e nem de sonhos pessoais. Também não há ninguém chamando essas mulheres de burras e otárias. Há sim piadas com seu estilo de vida, um reducionismo das funções práticas da maternidade e nenhuma empatia com elas.

A crítica é feita em cima de uma proposta de que mulheres largando seus empregos para ficar em casa seriam a nova revolução. Isso, pelo menos para mim, é backlash. É claro que sempre haverá pessoas que deixarão seus empregos para ficar em casa, especialmente mulheres, especialmente quando tem filhos. Porém, dizer que algo que sempre foi visto como uma obrigação da mulher é uma revolução, vai muito longe.

Nenhuma das pessoas que comentou no texto é uma mulher de classe alta americana para se sentir tão ofendida com as ironias da autora. Porém, ofensa é algo pessoal, muitas vezes impossível de ser prevista. Irônico é que algumas pessoas questionem o valor do dinheiro nos comentários, como se dinheiro não fosse um fator central em nossas vidas. Por mais que existam alternativas, mercados paralelos e profissões “menos” capitalistas, é grande a chance de que se posso comentar num blog, provavelmente sou de classe média. E, não pretendo baixar meu padrão de vida nos próximos anos. Posso não querer aumentá-lo, mas imagino que pouquíssimas pessoas nesse momento estejam fazendo planos para baixar seus padrões de vida. Assim como, as mulheres ricas americanas citadas no texto não ficaram pobres, baixaram o padrão de vida, se viram numa situação vulnerável.

Parece muito fácil ofender pessoas hoje em dia. É claro que estou falando de pessoas privilegiadas socialmente. Quem tem qualquer tipo de deficiência física ou psíquica, transgeneridade, sexualidade fora dos padrões normativos ou que não seja da raça branca é ofendido diariamente por nossa sociedade, se não tiver passabilidade social.

Também é óbvio que as redes sociais amplificam as questões, transformando tudo numa grande quizumba. Também é fato que as pessoas estão cada vez mais fechando-se em grupos e atuando como matilhas em momentos de discordância. É interessante notar como no início da manhã a pessoa tem uma opinião sobre o texto e no fim do dia tem outra, absolutamente contrária. Como se o objetivo desses textos fosse atacar todos os homens e mães, quando na verdade, o que se está fazendo é questionar escolhas.

Porém, ao que parece, não podemos questionar escolhas, especialmente das mulheres. Isso tem um pouco a ver com minha crítica ao movimento da sororidade dentro do Feminismo, mas acho que podemos ir além. Talvez não possamos questionar escolhas porque as mulheres sempre são culpadas por tudo. Sim, as mulheres já carregam o peso de serem cobradas constantemente pela sociedade, mas acredito que algumas mulheres também são beneficiadas pelo sexismo. Estou nesse grupo. E também quero que mulheres privilegiadas se sintam desconfortáveis.

Sou uma pessoa privilegiada socialmente. Portanto, de uns tempos para cá, meu exercício diário é justamente não me ofender quando apontam meus privilégios. Porque eles existem. Sou essa mulher que pode largar o emprego para ficar em casa. Sou a mulher que pode fazer escolhas e minhas escolhas podem me deixar vulnerável. Sou a mulher com a qual as pessoas deveriam estar fazendo piadas, porque sento para assistir Downton Abbey tomando chá inglês. E não acho que isso afasta as pessoas do Feminismo, porque o objetivo é justamente nos fazer pensar.

As mulheres não são todas iguais, nem mesmo dentro do Feminismo. Vivendo num mundo desigual é claro que algumas mulheres serão mais beneficiadas que outras. Por isso, acredito que devemos questionar as mulheres e suas escolhas. Então, quando o texto conclui que:

Ao longo de todo artigo de Warner, as mulheres que tentam voltar ao mercado de trabalho falam repetidamente de arrependimento. Elas se arrependem de terem deixado seus empregos e se perguntam onde suas carreiras as teriam levado. Mas arrependimento não é exclusividade daquelas que escolhem abandonar seus empregos. Arrependimento é um luxo daquelas que tem sorte o bastante para poder fazer escolhas. A tragédia real das mulheres que optaram por deixar seus empregos não é ter feito a escolha errada; a tragédia é terem sido forçadas a escolher.

Entendo que questionar escolhas não significa classificá-las como machistas ou afirmar que são erradas, mas sim perguntar por que as mulheres são forçadas a fazer essas escolhas e, mais que isso: quem são as mulheres que podem escolher? O que o Feminismo pode fazer para diminuir essas distâncias sociais entre as mulheres? A resposta do texto não está no Estado, porque trata-se de uma realidade americana, mas o embrião que questiona porque damos tanto valor ao trabalho e relegamos a família, mesmo querendo uma vida diferente, está lá.

Eu, como privilegiada, ainda posso escolher me ofender ou não com críticas as minhas escolhas ou estilo de vida. Ter poder de escolha numa sociedade desigual é um luxo.